Secretários de Cultura do Nordeste elaboram estratégias para fortalecer Consórcio

A reunião, realizada no Museu do Estado de Pernambuco (Mepe), no Recife, foi um espaço de resistência e formulação de novas iniciativas políticas que buscam favorecer este setor pelo viés econômico, e teve como principal ponto a entrada das pautas da Cultura – comuns à Região – no Consórcio Nordeste

Jan Ribeiro/Secult-PE/Fundarpe

Jan Ribeiro/Secult-PE/Fundarpe

O Museu do Estado de Pernambuco abrigou programação do Fórum de Secretários e Dirigentes de Cultura do Nordeste

Pernambuco sediou, nos dias 3 e 4 de outubro, no Museu do Estado de Pernambuco, a reunião do Fórum Estadual dos Secretários e Dirigentes de Cultura do Nordeste. O evento foi uma reunião de trabalho fechada aos participantes e contou com a presença de quase todos os gestores da pasta da Região Nordeste. Apenas Piauí não pôde enviar representante. Na pauta do primeiro dia, o Consórcio Nordeste e a cooperação internacional no campo da cultura.

A partir de uma articulação da Secult-PE, o Fórum contou com a representação de quinze, através de seus consulados: Eslováquia, Países Baixos, Paraguay, Japão, Cabo Verde, Albânia, França, Argentina, Eslovênia, Suíça, Romênia, Malta, Alemanha, Reino Unido, Costa do Marfim.

Também participaram das mesas e discussões, representantes de importantes instituições culturais internacionais, interessados em cooperação por meio da cultura. Marcaram presença o Instituto Cervantes, o British Council (organização internacional do Reino Unido para relações culturais e oportunidades educacionais), além da Unesco, a Organização de Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI), o Instituto de Pesquisas Estratégicas em Relações Internacionais e Diplomacia (IPERID) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

“Vivemos recentemente um enfrentamento e desmonte das políticas públicas construídas nos últimos anos, e, em relação à cultura, houve uma desestruturação dos órgãos que atuam nessa área. O objetivo do Fórum de Secretários e Dirigentes de Cultura do Nordeste foi traçar estratégias e elencar propostas convergentes para evitar que haja uma desestruturação maior num setor tão importante para a nossa economia”, explicou Gilberto Freyre Neto, secretário de Cultura de Pernambuco.

Jan Ribeiro/Secult-PE

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“Se querem cultura como alvo, terão cultura como flecha”, disse a secretária de Cultura da Bahia Arany Santana, presidente do Fórum

Nas falas de boas-vindas, Gilberto Freyre, ao lado da secretária de Cultura da Bahia e presidenta do Fórum Nordeste, Arany Santana, deram o tom do encontro: a união dos secretários do Nordeste em torno de objetivos comuns, a partir de boas e inovadoras práticas no campo da política cultural. “Quero dirigir meu abraço ao corpo consular aqui presente por entender a importância da diplomacia cultural nesse espaço de resistência. Espero que os senhores saíam daqui esperançosos, assim como nós temos saído a cada encontro que temos. O Consórcio Nordeste é o mais inventivo arranjo federativo deste difícil momento que o país atravessa. É preciso muita imaginação para construirmos políticas públicas. E se querem cultura como alvo, terão cultura como flecha”, disse a presidente.

Gilberto Freyre Neto ressaltou que a pauta norteadora da reunião do Fórum – a segunda desde sua criação, em agosto deste ano – é a discussão sobre a viabilidade e possibilidades das pautas da cultura, de forma unificada entre os estados. Para isso, o Consórcio dos Governadores do Nordeste poderá ser um condutor. Uma ferramenta que pode servir para fortalecer as mais diversas políticas culturais hoje desenvolvidas nos estados.

“Com a existência do Consórcio Nordeste temos a oportunidade de fazer cooperação entre os governos consorciados e instituições de países amigos interessados em trabalhar conosco. Isso coloca Recife numa situação política e geográfica estratégica. Somos a centralidade dos consulados do Nordeste. Podemos discutir políticas integradas em âmbito regional, com o corpo consular e a governança do Consórcio Nordeste, que começou como um consórcio de compras mas está adquirindo uma condição de representatividade territorial e política interessante. Estamos iniciando um diálogo”, colocou o secretário.

Arany Santana, Gilberto Freyre Neto e Carlos Gabas, que apresentou o Consórcio Nordeste para a Cultura

Arany Santana, Gilberto Freyre Neto e Carlos Gabas, que apresentou o Consórcio Nordeste para a Cultura

O secretário-executivo do Consórcio dos Governadores do Nordeste, Carlos Gabas fez a fala de abertura do encontro. E depois respondeu a perguntas, observações e sugestões dos presentes. Gabas explanou sobre o contexto de surgimento do Consórcio, suas aplicabilidades, vantagens e de formas pode atuar no campo da Cultura. Gabas vem realizando reuniões com fóruns das diversas secretarias dos governos consorciados. Ele ressaltou que o objetivo é “fortalecer políticas públicas existentes e promover um desenvolvimento sustentável para a região Nordeste”. Frisou também que a iniciativa trata de possibilidades de trabalho em conjunto e de convergência de interesses.  ”O Consórcio não vai executar ações, mas intermediar arranjos, compartilhar novas práticas, estudar suas aplicabilidades para novas situações”, colocou.

A primeira mesa do evento foi formada por Rainier Michael, cônsul da Eslovênia, e Vinícius Rego, sócio da consultoria Price Waterhouse Coopers (PWC), escritório Recife. Rainier apresentou o trabalho do Instituto de Pesquisas Estratégicas em Relações Institucionais e Diplomacia (Iperid), no contexto de cenários econômicos nacionais e globais. Vinícius Rêgo apresentou um dos estudos da PwC sobre a Economia do Mar, e como as informações podem subsidiar políticas para o fortalecimento da cultura do Nordeste.

A segunda mesa apresentou o trabalho dos consulados no campo da Cultura e exemplo de cooperação dos mesmos com o governo brasileiro, em diferentes esferas. Marion Fanjat falou representando o Consulado da França, e também leu o texto deixado pela representante da Alemanha. Francisco Dacal falou pelo Instituto Cervantes; e Gabor de Zagon pelo Consulado da Itália. Os secretários Arany e Gilberto mediaram os debates.

A apresentação dos consulados continuou na parte da tarde, com apresentação dos consulados dos Estados Unidos (John Morgan Barret), Argentina (Patrício Kingsland), Japão (Jiro Maruhashi) e British Council (Cristina Becker). Thales Castro, vice-presidente do Iperid, fez a mediação. O evento abriu espaço também para a participação da coordenadora de Cultura da Unesco no Brasil, Isabel de Paula e do coordenador de cultura da OEI, Rodrigo Rossi. Isabel falou sobre a possibilidade da criação de rotas do Patrimônio Cultural e uma redes de cidades criativas, entre os estados do Nordeste.

Ao final do dia, os participantes do Fórum estiveram presentes à cerimônia que celebrou, no Dia da Unidade Alemã, os 30 anos da Queda do Muro de Berlim. O evento aconteceu no Museu do Forte das Cinco Pontas.

O encontro entre o Consórcio Nordeste, o Fórum de Secretários do Nordeste e os organismos internacionais criou novas perspectivas de cooperação internacional para a região e para as relações bilaterais no campo da cultura. Essa é a conclusão unânime de todos os participantes.

“Creio que o sucesso dessa reunião se deva à capacidade de resistência e reação que o Nordeste vem demonstrando perante um cenário de desmonte, buscando, com criatividade, saídas apoiadas nas cooperações federativa e internacional. Já estamos com a missão de construir uma proposta da cultura para o Consórcio, com a colaboração de vários dos organismos internacionais  presentes ao encontro”, afirmou Silvana Meireles, secretária executiva  de Pernambuco.

FRENTE PARLAMENTAR DE DEFESA DO AUDIOVISUAL – Na sexta-feira (4), segundo dia do Fórum, a pauta foi preenchida com informes e encaminhamentos sobre questões como: censura às artes e à cultura, atuação da gestão da cultura no Legislativo e programas federais como Cultura Viva e Ancine.  O deputado federal Tadeu Alencar apresentou para os secretários de cultura a recém-criada Frente Mista Parlamentar em Defesa do Audiovisual .

Deputado Tadeu Alencar (terno cinza) apresentou, aos gestores, a Frente Parlamentar de Apoio ao Cinema e Audiovisual Brasileiros

Deputado Tadeu Alencar apresentou aos gestores a Frente Parlamentar de Apoio ao Cinema e Audiovisual Brasileiros

Tadeu reforçou que estamos vivendo um momento muito duro de ataque às políticas publicas à democracia, em diversos setores da administração pública. O que obriga, os que têm compromisso, a reagir. Ele citou a cultura como um dos setores que mais vêm sendo atingidos pela política do Governo Federal, a partir da extinção do Ministério da Cultura. “Todo regime autoritário de corte fascista ataca principalmente onde existe espírito libertário, o que a cultura dá, onde há resistência mais vigorosa”, disse. Ele citou o caso da Ancine, que hoje conta com apenas um único diretor, o que vem impedindo a deliberação de questão importantes para o segmento do audiovisual brasileiro.

“Essa política está atingindo uma indústria criativa que fatura R$ 45 bilhões ao ano, que cresce 8,8% ao ano, enquanto o Brasil cresce menos de 1%, e que emprega mais de 100 mil pessoas diretamente . A Frente Parlamentar nasceu da necessidade de articular mais um espaço onde essas questões possam ser discutidas; para que se possa, de um lado, resistir aos desmontes e, ao mesmo tempo, fazer avançar questões fundamentais para que possamos dar continuidade, e perspectiva de futuro a essa extraordinária economia da cultura”, diz Tadeu.

O deputado informou aos secretários que a Frente – a ser lançada oficialmente em sessão solene na Câmara, no próximo dia 16 de outubro – deverá construir representações regionais, para ficar cada vez mais fortalecida. Ele elogiou a iniciativa dos secretários de começar a discutir possibilidades de atuação em conjunto, a partir do Consórcio Nordeste. “Isso dá a dimensão de como o Nordeste está sendo visto. É uma estratégia de sobrevivência, agir com racionalidade no serviço público. Escutei aqui nesse Fórum uma frase que espelha muito bem isso: ‘há uma luz acesa no Nordeste, mas não para iluminar apenas o Nordeste, mas para o Brasil todo’. Temos o enorme desafio de articular iniciativas, tanto legislativas, quanto de pactuação com a sociedade civil do país, para que possamos cumprir o papel fundamental de defender a cultura brasileira”, colocou o parlamentar.

UNICEF –  O chefe do Território do Semiárido do Nordeste da Unicef, Dannis Larsen, também se fez presente na reunião com os secretários e dirigentes de Cultura do Nordeste. Ele apresentou alguns projetos da instituição e manifestou o interesse do órgão em dialogar e discutir sobre projetos de cultura que possam incidir sobre o público alvo da Unicef, que são crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.

“O Consórcio Nordeste está sendo criado agora, e é importante para nós participarmos. Estamos há 20 anos no Nordeste , como uma área geográfica prioritária, e queremos ver como fazer parcerias mais concretas para realizar os direitos fundamentais das crianças e adolescentes. Dependendo dos planos, esperamos que algumas áreas possam incluir a Unicef, porque sabemos que tem muita criança nessa região ainda fora da escola, então acreditamos que projetos de educação e também de cultura de paz possam ser capazes de motivar e sensibilizar os jovens e as famílias”, colocou Dannis.

Forum abriu espaço para recebimento e leitura de uma carta dos gestores do Programa Cultura Viva Nordeste

Fórum abriu espaço para recebimento e leitura de uma carta dos gestores do Programa Cultura Viva Nordeste

CULTURA VIVA – Os secretários, durante o Fórum, receberam ainda uma carta que foi fruto de uma reunião entre gestores do Programa Cultura Viva no Nordeste que aconteceu na sexta-feira (4), na Escola Técnica Musical. Participaram da reunião representantes de cinco estados nordestinos (PE, BA, CE, AL e RN). “O objetivo é encontrar caminhos para solucionar inseguranças jurídicas e políticas que cercam a gestão do Programa. Além disso, queremos também o fortalecimento do Cultura Viva, porque entendemos essa iniciativa como algo essencial para o desenvolvimento da Região Nordeste, colocou Tarciana Portela, gerente de Formação da Secretaria de Cultura de Pernambuco, que participou do encontro. Após a reunião, os gestores seguiram para o Fórum de Secretários do Nordeste, onde entregaram e fizeram a leitura da Carta, que pode ser conferida na íntegra aqui.


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