Professor da UPE rebate críticos do projeto de usina nuclear em Itacuruba

Foto: EBC
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Por Heldio Villar, professor da Escola Politécnica da Universidade de Pernambuco (UPE)

As Cassandras antinucleares

Há uns 10 ou 12 anos houve um encontro num hotel do Recife, no qual técnicos do setor elétrico projetaram que, até 2030, o Brasil atingiria um padrão de consumo de energia elétrica similar ao do Portugal. Naquela época, cada brasileiro consumia, em média, 2,2 Mwh/ano, enquanto em Portugal esse número era 4,5. Nesses 10 anos, o número português foi para 5,1, enquanto que o brasileiro avançou para 2,5. Tem-se, então, uma tarefa hercúlea nessa próxima década, tarefa essa que teria sido facilitada se tivesse sido então abraçada a opção nuclear. Agora essa opção está sendo reconsiderada, com a retomada do projeto de se instalar no Nordeste uma usina com até 6 reatores.

Para se ter uma ideia da importância da fonte nuclear, esses 6 reatores, com uma potência instalada combinada de 6.600 MW, irão gerar anualmente mais de 50 milhões de MWh, o mesmo que as hidrelétricas da CHESF, nos bons tempos, tinham capacidade de gerar. O parque eólico nordestino, que tem uma potência instalada de 14 mil MW, gerou metade dessa energia nos últimos 12 meses.

Um projeto dessa natureza, que exigirá um investimento de uns 30 bilhões de dólares, resultará na criação de milhares de empregos diretos e indiretos e no pagamento de “royalties” ao Estado onde ele estiver. E Pernambuco sai na dianteira, pois o sítio proposto em Itacuruba foi considerado como ideal pelas maiores autoridades mundiais nesse campo. Some-se a isso que fica em Pernambuco o único instituto da Comissão Nacional de Energia Nuclear do Nordeste, sendo também o único Estado nordestino capaz de promover a formação de pessoal técnico na área nuclear.

Nada, porém, é perfeito. Enquanto as forças políticas de Pernambuco se mobilizam para discutir técnica e economicamente a questão, já começam a surgir as Cassandras que, a exemplo da irmã do raptor troiano de Helena, querem fazer com que os cidadãos de Itacuruba creiam que a usina seja uma versão moderna do Cavalo de Troia, que, além de não trazer para a região os benefícios propalados, ainda levará à destruição do ecossistema e mesmo a consequências piores.

É lamentável que isso ocorra num momento em que o País luta para deixar para trás os anos recentes de estagnação e retrocesso, o que irá requerer ofertas cada vez maiores de energia elétrica a preços baixos. O Nordeste, particularmente, é uma região carente desse insumo, tendo que importar de outras regiões cerca de 20% da eletricidade que consome. Lembrando que, caso ocorra a tão esperada retomada do crescimento, essas regiões poderão não ter energia suficiente para exportar. Claro que, nessas horas, sempre se fala na energia eólica, mas não se deve esquecer que o parque eólico regional custou cerca de 30 bilhões de dólares, ou seja, o mesmo investimento previsto para os 6 reatores, mas gerando metade da energia.

É evidente que a instalação de uma usina nuclear não pode ser feita “de supetão”. Serão feitos estudos detalhados e, como prevê a lei, realizadas audiências públicas. Nessa hora, o que se espera da população é que ela esteja de posse das informações corretas a respeito das centrais nucleares, de forma a poder tomar a decisão que melhor atenda seus interesses.

Para isso, da mesma maneira que os troianos do passado, ela deve fazer ouvidos moucos às modernas Cassandras, desta vez por uma boa causa. Cassandra realmente dizia a verdade, pois recebera esse dom do deus Apolo. As Cassandras de hoje, obviamente, não receberam dom de deus algum, pois é difícil vislumbrar que provenha de algum deus coisas como a ignorância ou a má-fé.

Em suma, a população de Itacuruba, de todo Pernambuco, deve ter em mente que não se fazem mais Cassandras como antigamente.

Heldio Villar é professor da Escola Politécnica da UPE


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