Projeto de conservação restaura fachada de casarão centenário em Olinda

Para fazer a restauração, equipe precisou estudar os azulejos e identificar as influências de cada detalhe da fachada

Casarão tornou-se sede da Sociedade Beneficente de Artistas e Operários de Olinda em 1944  / Foto: Filipe Jordão/ JC Imagem
Casarão tornou-se sede da Sociedade Beneficente de Artistas e Operários de Olinda em 1944Foto: Filipe Jordão/ JC ImagemCidades

Desde a fachada até o interior, os detalhes entregam a presença do tempo. Os azulejos da entrada são franceses e mesmo quem não entende de arquitetura percebe que eles carregam décadas de história. Assim como as janelas – todas em madeira – e os ornatos da arquitetura, criados com total influência portuguesa. O casarão, localizado no Sítio Histórico de Olinda, é datado do século XX e desde 1944 tornou-se sede da Sociedade Beneficente de Artistas e Operários de Olinda (SBAOO). Completando 110 anos neste mês, a associação ganhou um presente e tanto: o casarão está passando por obras de conservação e restauração da fachada icônica. No entanto, enquanto comemoram a preservação do prédio, integrantes lamentam a paralisação das atividades da Sociedade pela falta de convênios.

O grande salão do térreo, hoje repleto de materiais para a restauração das peças, já foi utilizado para cursos e workshops. Desde sua criação, em 1909, a SBAOO atua na profissionalização dos moradores para a geração de renda. As atividades, entretanto, foram interrompidas por falta de convênios para a disponibilização de material e professores. “Tínhamos convênio com a prefeitura desde o início das nossas atividades. Este ano as coisas mudaram e agora estamos procurando parceria com outras entidades e até profissionais que se disponibilizem a ministrar os cursos de forma gratuita. O que nós queremos é ajudar as pessoas e fazer com que elas se sintam úteis, ainda mais em um período de tanto desemprego”, pontua o vice-presidente da SBAOO, Cláudio Marques. No espaço, doado à Sociedade em 1944 pelo então governador do Estado, Agamenon Magalhães, eram ministrados cursos de corte e costura, confeitaria, macramê e produção de peças íntimas. Segundo a Secretaria de Patrimônio, Cultura, Turismo e Desenvolvimento Econômico de Olinda, o convênio não foi renovado por falta de documentação por parte da Sociedade.

Restauração

A ideia de restaurar a fachada surgiu de duas restauradoras da Estúdio Sarasá, a arquiteta Magda Rosa e a gestora cultural Flávia Sutelo, com o propósito de preservar um dos últimos exemplares da arquitetura civil – casas com azulejos nas fachadas – de Olinda. O projeto foi montado e submetido a um edital do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura PE), que está financiando parte dos custos. As atividades começaram em julho e abrangem todos os elementos que formam a fachada do antigo casarão. “Viemos para Olinda e esse sobrado nos chamou atenção pela particularidade da azulejaria, assim como sua qualidade técnica e a beleza dos azulejos. A tradição das SBAOO com as artes e os ofícios casa muito com a essência do trabalho de restauração que é preservar os saberes e fazeres passados”, conta Flávia Sutelo.

A frente do sobrado carrega uma mistura de referências. São 48m² de azulejos franceses datados do final do século XIX estampando o prédio de ornatos da região do Porto. Esculturas de santos e pinhas também portugueses complementavam a fachada, mas precisaram ser retirados após uma onda de furtos no Sítio Histórico. Os trabalhos de restauração incluem os revestimentos, portas e janelas, gradis das varandas, as peças que as enfeitavam e a reestruturação do sistema de escorrimento da água, que foi identificado como um dos fatores que danificou a azulejaria ao longo das décadas. O orçamento total é de R$ 231.978,20.

“Nosso trabalho visa conservar ao máximo as peças. Fazemos o trabalho de manutenção com a menor intervenção possível”, explica a arquiteta Magda Rosa. A primeira etapa do projeto está sendo a restauração das portas e janelas. Depois, mais próximo do verão, será a vez de trabalhar os azulejos. Segundo Magda, cada um deles é trabalhado para a retirada do excesso de material colante, limpeza e restauração das laterais e desenhos. A mesma estampa de azulejo também pode ser vista em um imóvel antigo na Avenida Martins de Barros, no Recife.

A aposentada Alice Almeida, de 81 anos, mora no Sítio Histórico e tem uma relação antiga com a SBAOO. Lá, ela já fez cursos de bordado, macramê e pintura. Apesar de não utilizar as técnicas para a geração de renda, ela reconhece a importância dos cursos para os olindenses. “As turmas eram enormes e até hoje as pessoas que sabem que eu participava me perguntam se ainda vai ter. Isso ajudou muita gente que estava desempregada, é muito lucrativo. A gente ficou triste porque os cursos acabaram mas estamos felizes pelo prédio estar sendo conservado. Ele faz parte da história do Sìtio Histórico e precisa ser mantido”, diz.

Sob a coordenação de Magda e Flávia, uma equipe de funcionários olindenses foi contratada para a restauração das peças. O trabalho deve durar oito meses e a expectativa é que fique pronto antes do carnaval.

Semana do Patrimônio

Moradores e interessados em entender um pouco mais sobre o processo de preservação e restauração deste e outros casarões do Sítio Histórico de Olinda poderão participar de uma manhã de palestras no sobrado da SBAOO no próximo dia 21, a partir das 9h30. À tarde, poderão ser feitas visitas à obra acompanhadas pelas restauradoras Magda Rosa e Flávia Sutelo. As atividades fazem parte de um extenso cronograma em comemoração à 12ª Semana do Patrimônio Cultural de Pernambuco, celebrada em várias cidades do Estado. 

O tema da Semana deste ano é “Territórios Educativos e Culturais: diálogos possíveis”. O objetivo da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) é que seja debatida a relação entre estes dois tipos de territórios na formação cultural em Pernambuco. “Queremos discutir que espaços são esses, que para nós vai além dos espaços físicos da escola, e como eles transformam a vida das pessoas com aulas, cursos, cultura e oportunidades”, explica a coordenadora da Semana, Renata Echeverria Martins.

Pela primeira vez, cidades como Água Preta, na Mata Sul, Araripina, no Sertão, e Abreu e Lima, no Grande Recife, estão participando da programação. Na última edição, apenas 13 municípios pernambucanos faziam parte do evento. Este ano o número chegou a 30. O tempo de duração também aumentou. No início só era comemorado o dia Dia Nacional do Patrimônio Histórico, celebrado no dia 17 de agosto, mas hoje as atividades se estendem ao longo do mês.  A programação inclui palestras, debates e apresentações culturais divididas em quatro eixos temáticos: Brincar com o Patrimônio, Experimentar o Patrimônio, Interpretar o Patrimônio e Pensar o Patrimônio. 

Nesta segunda-feira (12) acontece a abertura oficial desta edição e, no Recife, o evento é marcado pela palestra “Futuros possíveis: O patrimônio imaterial de Pernambuco”, com o professor, jurista e acadêmico Dr. Joaquim de Arruda Falcão, no Museu Cais do Sertão, no Recife Antigo, às 15h. No mesmo dia, estudantes, professores e moradores da comunidade do Arruado do Engenho Velho, na Várzea, Zona Oeste do Recife, poderão participar do workshop “Patrimônio e Memória: uma leitura sobre a História do Arruado do Engenho Velho” e da roda de Conversa “O arruado a partir da memória de seus moradores”. Na capital pernambucana a programação só termina no dia 10 de setembro com a oficina “Cartografia Afetiva do Bairro de Casa Amarela”, na biblioteca popular do bairro. O público são jovens de 13 a 16 anos. 

A grade completa de atividades pode ser conferida no site da Fundarpe (www.cultura.pe.gov.br). 

JC Cidades


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *