Polo de Confecções de Santa Cruz do Capibaribe :“Nosso diferencial é a capacidade de adaptação às mudanças”

Presidente da CDL-SCC analisa o Polo da Moda na era digital.

Tudo é superlativo quando o assunto é o Polo de Confecções de Santa Cruz do Capibaribe, cidade do Agreste pernambucano. Prova disso é o Moda Center Santa Cruz, centro atacadista do setor que reúne mais de 10 mil pontos comerciais, entre boxes e lojas, onde são comercializadas peças no atacado e no varejo. Na baixa temporada recebe até 60 mil visitantes de várias partes do País, em dois dias de feira, que se tornam 160 mil na alta temporada. Cláudia Santos e Rafael Dantas foram até a cidade e conversaram com Bruno Bezerra, presidente da CDL-SCC (a Câmara de Diretores Lojistas da cidade) para falar sobre seus planos à frente da entidade, que é focada em moda. Bezerra elogia a capacidade da economia local de se adaptar às mudanças, desde os tempos em que girava em torno da feira de mangaio. Agora toda essa flexibilidade é voltada para as oportunidades da internet e a preservação ambiental.

Quais são seus planos na CDL-SCC?
O principal propósito é sermos conhecidos nacionalmente como uma CDL que tem foco em moda e criatividade, porque é a vocação da região. Criamos câmaras setoriais, como a de Moda e Criatividade, de Escolas, de Atacadista de Tecido e Armarinho, de Arquitetos e Engenheiros, de Representantes de Escritório e de Representação de Confecção. Essas câmaras promovem um envolvimento maior dos empreendedores.

Qual o resultado dessas câmaras?
A Câmara de Representantes, por exemplo, promove uma rodada de negócios, em agosto, cuja movimentação estimada é de R$ 8 milhões. A intensão da Câmara de Moda e Criatividade é trazer gente mais nova para cá para trabalhar com criação. Vamos desenvolver alguns cursos, entendendo como é a realidade daqui. Hoje temos uma dependência grande do Sistema S, mas nem todos os cursos deles atendem à nossa demanda em 100%. Sempre tem aquele espaço para se criar algo mais focado, levando em consideração nossas particularidades.

Qual o tamanho do polo?
É muito difícil mensurar em termos de faturamento porque existem vendas que acontecem em outros Estados, mas foram geradas aqui. Temos um estudo mostrando que há empreendedores de 54 municípios (18 dos quais são da Paraíba) que escoam sua produção a partir da venda que fizeram no Moda Center. Há também uma quantidade expressiva de empreendedores de Moreno (na Região Metropolitana do Recife). Eles produzem lá e, semanalmente, escoam a produção na feira. Como, em geral, ela acontece em um dia, o empreendedor pode passar o restante da semana cuidando da produção, vem para cá na segunda-feira comercializar e depois retorna. Nosso mercado é sobretudo o Norte e o Nordeste, mas já conseguimos entrar no Centro Oeste, em Minas Gerais e em São Paulo.

Qual o principal desafio do Polo de Confecções?
Temos uma enxurrada de conhecimento acessível, sobretudo na internet. O desafio é ter clareza do que precisa ser aprendido. Há uma dinâmica muito grande da economia, que pode promover uma determinada mudança e, quando a gente acha que aquela mudança vai começar a se estruturar, ela já não existe mais, há um novo processo em andamento. Aí, você tem que evocar Darwin: os que sobrevivem não são os mais fortes ou inteligentes, são os que melhor se adaptam às transformações. Se você estudar a história do setor de confecções, que é a história de Santa Cruz, a cidade mãe do polo, verá que nosso grande diferencial foi a capacidade de nos adaptarmos às mudanças. Na década de 1940, Santa Cruz era distrito de Taquaritinga do Norte, mas o distrito já tinha uma feira de mangaio maior que a da sede. Temos essa habilidade de comercializar em feira, nosso primeiro ambiente de negócios. Daí surgiu a oportunidade de migrar da agricultura e pecuária de subsistência para confecção (que num primeiro momento também foi de subsistência) que era vendida também nas feiras. Com o surgimento da máquina de costura industrial, a produção aumentou. A feira já não era suficiente para escoar o que era produzido. Por isso, os mascates começaram a viajar para vender esses produtos para, por exemplo, Irecê, na Bahia, na época da colheita de feijão.

Depois a feira começou a ganhar uma estrutura com o Moda Center. Nesse meio tempo, veio a rodada de negócios, depois chegaram os escritórios de representação. O empresário do Pará, por exemplo, que tem uma rede de lojas, contrata esses escritórios para comprar aqui e fazer a logística de levar para lá. Agora, com as redes sociais, está melhor ainda. Empresários postam as mercadorias no Instagram, os seguidores veem e já correm para o WhatsApp para fazer o pedido. Muitas empresas participam da feira só para entregar os produtos. Montamos um estúdio de fotografia na CDL porque, hoje, uma boa foto de moda rende tão bem quanto um bom atendente. Algumas profissões estão acabando, mas outras são criadas, como o gestor de mídias sociais. Um dos cursos que mais ofertamos é o de gestão dessas novas mídias. O Instagram é a rede social que a moda do mundo inteiro escolheu, por ser muito visual, e moda é sobretudo imagem. Criamos também o primeiro concurso de modelo fotográfico, porque há escassez desses profissionais, em razão da demanda das empresas locais. Essa habilidade de acumular esses canais de venda com competência é o que faz toda a diferença. Quem vê de fora, não conhece essa dinâmica, pensa que é só a feira, mas para alguns ela é o menor canal. Hoje, também, há questões estratégicas que precisam ser trabalhadas junto com outras associações. Por isso, criamos uma governança que funciona basicamente aqui no prédio da CDL com: Moda Center, Ascap (Associação Empresarial de Santa Cruz do Capibaribe) e Ascont (Associação Santacruzense de Contabilistas). Começamos a ter ações em conjunto enquanto ambiente de negócios.

Essa preocupação do setor em se atualizar se reflete no tema desta edição do EMP (Estilo Moda Pernambuco), Moda 4.0?
Sim. A indústria 4.0 é uma realidade que vem dominando o processo industrial do mundo inteiro e precisamos estar antenados com essas transformações. Precisamos entender o funcionamento da inteligência artificial e os trabalhos de impressora 3D aplicados à moda. No ano passado o tema do EMP foi sustentabilidade, que é outro grande desafio.

Como a preservação ambiental é realizada pelo setor?
Está havendo a diversificação da matriz energética. Muitas empresas daqui já estão preocupadas em investir em energia solar. E, vou ser sincero: não só por causa da sustentabilidade ambiental, porque se fosse só por isso, ninguém investia. Trata-se de um tripé: sustentabilidade financeira, social e ambiental. A matriz solar conseguiu atender esse tripé. O empresário tem uma redução significativa do custo de energia, que é o principal insumo, juntamente com o tecido. Além disso, tem o bônus da sustentabilidade ambiental. Os valores das novas gerações também estão mudando, a gente vê uma meninada parando a Europa para pedir atenção para a questão do desarranjo ambiental do planeta. No ano passado tive uma reunião no Recife com Sérgio Xavier, ex-secretário do Meio Ambiente. Estudamos a possibilidade de criar um laboratório em Santa Cruz para fazer a reutilização dos resíduos de tecido. Temos um volume muito grande desses resíduos. Um parceiro que pode ser estratégico nos desafios da sustentabilidade que o Semiárido precisa enfrentar é a universidade.

Como você vê o futuro de Santa Cruz?
Vejo uma tendência de diversidade de moda. Temos essa capacidade de diversificar, diferentemente da China, que faz uma enxurrada de mercadorias para o mundo inteiro, mas é o mesmo produto basicamente. Outro aspecto é a pegada ambiental, temos um ecossistema exclusivamente brasileiro que é a Caatinga, onde estamos inseridos, e que requer preservação. Temos uma matriz energética inesgotável que é o sol, e aqui teríamos um sol pra cada empresa (risos), a questão é transformar isso em valor de imagem e de redução de custos para os empresários. Vejo também alguns e-commerces sendo realizados a partir daqui, mas vejo também a gente abastecendo e-commerce no mundo inteiro, porque o produto vai precisar ser fabricado em algum lugar, mas o comércio eletrônico não precisa estar necessariamente aqui. Temos que dominar essa pegada da moda criativa, diversa, larga, frouxa, que entenda essas tendências e que também promova tendências. Vai chegar um momento em que começa a saturar a moda produzida em Paris, Milão ou Nova Iorque. Tem gente que vai querer fugir um pouco e conhecer a moda que é produzida lá no Vale do Capibaribe. Temos condição de promover uma moda tão boa quanto qualquer grande centro, desde que a gente prepare as pessoas para isso. Ter indústria 4.0 é muito interessante, mas detrás de toda máquina, de toda inteligência artificial, tem que ter a inteligência criativa humana.

E cultura vocês têm de sobra para inspirar a criatividade.
Esse é outro elemento muito forte que temos. Por exemplo, o segundo Natal que a gente tem (ou seja, o segundo período de maior venda dos produtos) é o São João. O que é o São João? É cultura, ou seja, cultura transformada em negócio. É a maior festa do Nordeste que aquece o comércio de roupas. É uma pena que estamos com esta recessão no País inteiro e não tivemos o São João que gostaríamos de ter este ano.

Há alguma parceria do polo daqui com o Porto Digital?
Conversei sobre isso num evento no ano passado. Eu disse a Silvio Meira (conselheiro do Porto Digital) que a estrutura do Armazém da Criatividade, em Caruaru, é sensacional, mas tenho certeza que se ela estivesse aqui teríamos apresentado resultados mais expressivos. Não é uma questão de vaidade, é que teríamos mais uma ferramenta para apoiar tudo aquilo que a gente conversou. Por exemplo, o Armazém da Criatividade tem um estúdio de fotografia e nós criamos um outro aqui, em função da demanda das empresas, porque para ir a Caruaru, tem-se que fazer uma viagem, deslocar pessoal, é um custo a mais. Caruaru é mais diversa, tem mais segmentos, é a grande economia do interior do Estado, que vem crescendo de maneira muito expressiva, com mérito das associações e dos empreendedores da cidade, mas quando o assunto é moda, é o polo, Santa Cruz tem um foco maior. Outro exemplo é o Marco Pernambucano da Moda, que está no Centro do Recife. Se você for comparar o setor na capital e aqui, verá que em termos de resultado, geração de emprego, de tributos e de negócios temos melhor desempenho. Uma pessoa que está fazendo curso por lá, tem uma carga de conhecimento e é criativa, muitas vezes, não tem oportunidade no Recife. A oportunidade está aqui onde se geram os negócios da moda. Isso precisa ser dito e trabalhado. Acho que o Marco Pernambucano da Moda deveria funcionar no Agreste e não lá no Recife. O estreitamento com o Porto Digital é fundamental. Sei da dificuldade que eles enfrentam para fazer investimentos, com equipamentos que não são baratos, mas eles têm um horizonte de interiorização.

por Revista algomais


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *