Bike PE: faz sucesso, mas não expande

por Roberta Soares 

Sistema de compartilhamento de bicicletas públicas chega aos seis anos com o mesmo número de estações de quando foi criado. Fotos: Filipe Jordão/JCImagem

A partida fulminante e precoce da Yellow – empresa de compartilhamento de bicicletas públicas dockless (sem estação) – não só deixou uma lacuna na oferta do serviço no Recife, como também evidenciou a necessidade de ampliação das bicicletas para alugar. Sem ou com estação. Há seis anos – completados no próximo mês – o Recife ganhou o sistema Bike PE, patrocinado pelo Itaú Unibanco, operado pela Tembici e supervisionado pelo governo de Pernambuco, que deu um salto de qualidade em 2017 e é um sucesso entre os usuários. Mas o sistema não cresce. Começou com 80 estações instaladas na capital pernambucana, algumas poucas em Olinda e em Jaboatão dos Guararapes, e segue, tanto tempo depois, com a mesma quantidade. Cobranças têm sido feitas, mas nada acontece. E o que é pior: por enquanto, não há perspectiva de expansão. Uma péssima notícia para quem pedala no Dia Nacional do Ciclista, data criada no País e válida desde o ano passado.

Como se não bastasse a não expansão, o Bike PE ainda poderá reduzir a gratuidade que hoje é oferecida aos estudantes, público que representa 50% dos usuários do sistema. O que está sendo discutido é a possibilidade de restringir o benefício aos estudantes da rede pública de ensino estadual e municipal. Apenas. Os estudantes da rede particular e todos os outros que conseguem uma carteira de estudante (porque fazem pós-graduação, por exemplo) passariam a pagar um plano. Existe a possibilidade de serem criados planos diferenciados, com preços reduzidos, para atender a essa parcela que ficará de fora do benefício. O assunto vem sendo tratado com a Secretaria de Turismo de Pernambuco, órgão que faz a gestão do projeto. Embora a circulação e as regras para uso de bicicletas sejam de competência dos municípios, o sistema pernambucano é o único que fica sob o guarda-chuva do Estado.

Para expandir, o Bike PE precisa buscar novos patrocinadores. Diretores e gerentes do Itaú já afirmaram publicamente, algumas vezes, que a ampliação dos serviços, agora, dependerá da capacidade de articulação do operador, no caso a Tembici. A empresa diz estar atenta à necessidade de expansão e garante trabalhar para buscar novos patrocinadores. “Não temos nada para prometer agora, mas estamos buscando, sim, novos patrocínios. Talvez num modelo de patrocinadores individuais para um número menor de estações ou com a exploração de espaço publicitário nas estações”, afirma Tomás Martins, CEO da Tembici.

A ideia é seguir o modelo de Fortaleza, que tem patrocinadores diferentes para o mesmo sistema. Há uma grande empresa, no caso a Unimed, patrocinando a maior parte do projeto, e outras pequenas bancando duas ou três estações. No sistema pernambucano, o que a Tembici e o Itaú têm planejado por enquanto são ajustes para otimizar a operação do sistema. O que eles chama de bolsões. “Já começamos em São Paulo e no Rio de Janeiro e, no Recife, estamos começando o primeiro. Consiste em deixar um funcionário ao lado das estações de maior demanda, nos horários de maior movimento, para receber a devolução das bicicletas”, explica.

Para sorte dos usuários, a operação do sistema Bike PE é boa. Há estações que, nos horários de pico da manhã têm problemas de vagas para devolução e que, à noite, sofrem com a ausência de bicicletas. Mas ainda são problemas pontuais. As bicicletas e o processo de liberação e devolução da canadense PBSC são robustos. O que é importante porque o Bike PE é, essencialmente, utilizado como transporte. Os números do sistema, por si só, já justificam a expansão. São quase estratosféricos. O crescimento das viagens este ano alcançou 100% de um mês para outro. Entre setembro de 2017, quando saiu a Serttel e entrou a Tembici/PBSC, e abril deste ano, o cadastro de usuários tinha aumentado 2.738% e as viagens, 434% em relação ao ano anterior. De seis mil viagens/mês, como aconteceu em julho de 2017, passou para 110 mil viagens/mês. Resultado da confiabilidade que o serviço voltou a oferecer, depois de mais de um ano definhando, com bicicletas velhas e diversos problemas de conectividade.

Além de não expandir, o Bike PE também tem deixado a desejar no papel de fomentador da infraestrutura ciclável nas cidades. Era um propósito anunciado seis anos atrás, quando o sistema foi criado, e colaborou para a troca de operador na época. Agora, mesmo sendo mais moderno e eficiente, segue sem conseguir ser influenciador na expansão da malha ciclável. As ciclofaixas que o Recife implanta, por exemplo, em nada dialogam com a instalação das estações do Bike PE. Em agosto de 2018, o governo do Estado, via gerência de Ciclomobilidade (que integra a Secretaria de Turismo de Pernambuco) prometeu que o sistema ganharia mais 80 estações, chegando a 160 unidades na RMR. O tempo passou e a ampliação não veio. Agora, o assunto não é sequer comentado. Caiu no esquecimento.

Sistema de Fortaleza tem um patrocinador principal e diversos pequenos. Fotos: Prefeitura de Fortaleza

No lugar de crescer, o compartilhamento de bicicletas está sendo reduzido no Recife. Um comunicado enviado aos usuários na semana passada informa que, a partir do dia 31/8, o Bike Kids Recife estará encerrando a oferta de empréstimo de bicicletas infantis compartilhadas.

Questionado pelo JC, o governo do Estado afirmou estar negociando com a Tembici para manter a gratuidade do VEM Estudante. Sobre a expansão do sistema e a conexão com a ampliação da malha ciclável, deu respostas vagas. Confira a nota oficial da Secretaria de Turismo de Pernambuco na íntegra:

“O Sistema Bike PE é o único serviço de bicicletas compartilhadas de Pernambuco que oferece gratuidade aos usuários do VEM Estudante, o que sinaliza o compromisso do sistema na integração com outros modos de mobilidade urbana da RMR, além do atendimento às demandas sociais. O Estado segue na direção de manter este compromisso e, para tal, está em negociação com a Tembici, empresa que hoje opera o sistema.
Sobre a distribuição das estações, o mapa atual de localização dos terminais é avaliado constantemente, levando-se em conta a demanda da população. Sobre o incremento na malha ciclável da RMR, a Secretaria de Turismo e Lazer reafirma que está atenta a este crescimento e que ele serve para nortear a escolha de novos locais para instalação de terminais, como também para a ampliação do número de estações e de bicicletas”.

Para sorte dos usuários, Bike PE é bom. Mas já enfrenta falta de bicicletas e de vagas para devolução em algumas estações e horários

Abaixo, o posicionamento da Associação Metropolitana dos Ciclistas do Grande Recife (Ameciclo), que levanta algumas questões como o financiamento, via taxação de aplicativos e estacionamento rotativo, da malha ciclável:

“De acordo com o relatório “Aspectos Econômicos das Mudanças Climáticas nas Cidades: Recife, Brazil”, o compartilhamento de bicicletas é, dentre as ações para diminuição de gases de efeito estufa, a número um em viabilidade de implantação no Recife por proporcionar retornos de investimento para a cidade, além de garantir a diversificação dos modos de transporte. Infelizmente, nossos estudos e planejamentos demoram muito para serem colocados em prática, quando o são. Esse assunto é particularmente verdade quando o assunto é a bicicleta.

Uma expansão dos sistemas compartilhados de bicicletas deveria passar a ser uma política de Estado. Fortaleza, nossa cidade irmã, está planejando bancar com o cofre da prefeitura a expansão de mais de 80 estações, com os recursos de taxação da Uber e Zona Azul. Nós ainda dependemos da boa vontade das empresas patrocinadoras e operadoras, cabendo muitas vezes ao município colocar apenas dificuldades para a operação.

Vale ressaltar que os desejados deslocamentos por bicicleta no Recife só aumentarão quando uma rede cicloviária segura for implantada nas vias mais rápidas e movimentadas da cidade, conforme prevê o Plano Diretor Cicloviário, o Plano de Baixo Carbono, e o projeto Parque Capibaribe. Isso trará segurança para o usuário da bicicleta própria ou da compartilhada e trará mais usuários para as vias, descongestionando e melhorando a segurança no trânsito”.

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