Energia solar ao alcance de todos em Pernambuco

Muitas famílias estão buscando estratégias para reduzir custos com itens como a energia

A professora Lucia Helena, 54, financiou seis placas fotovoltaicas durante cinco anos e já está sentindo o benefício do investimento / Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem

A professora Lucia Helena, 54, financiou seis placas fotovoltaicas durante cinco anos e já está sentindo o benefício do investimentoFoto: Bobby Fabisak/JC Imagem

Luca Moraes

Desde que dona Lucia Helena Santos de Melo, 54 anos, decidiu apostar numa novidade antes associada apenas a condomínios de alto poder aquisitivo, a rua Antônio Matoso, tornou-se atração no bairro de Santo Aleixo, onde mora, na periferia do município de Jaboatão dos Guararapes, Grande Recife. Diferente da residência dos vizinhos, em sua maioria cobertas por telhas de cerâmica, na casa da professora, a cobertura brilha. “Eles param, perguntam e querem saber como funciona. Eu mesma não sabia bem do que se tratava até instalar. Para mim era uma coisa estranha e de gente rica”, conta. O “objeto estranho” instalado na residência de dona Lucia são placas fotovoltaicas (que captam os raios solares para transformá-los em energia). Cada vez mais popular, e barata, a tecnologia avança para converter o consumo energético do País de fontes poluidoras, que ainda representam 56%, para as renováveis.

Mas o apelo ecológico não é o único que tem pesado na decisão. Com o orçamento ainda apertado, muitas famílias estão buscando estratégias para reduzir custos com itens de necessidade básica, como a energia. Nada mais oportuno, considerando que em Pernambuco, este ano, as contas de luz sofrerão um reajuste de 5,14% para consumidores residenciais, fora a bandeira amarela que irá vigorar a partir de maio, acrescentando R$ 1 a cada 100 kWh consumidos.

“Comecei a ouvir falar de energia solar na televisão, começamos a pesquisar melhor e fui procurar uma empresa para saber como funcionava. Fiz uma reforma de fim de ano em casa e resolvi instalar. Aqui na rua sou a primeira, mas muita gente já pede o número da empresa que fez o serviço”, conta Lucia Helena, que financiou seis placas fotovoltaicas, ao custo de R$ 120,70 durante cinco anos (total de R$ 7.242), através de uma linha de crédito bancária. “Já cheguei a pagar R$ 190 de conta de luz, e aqui em casa a gente só usa televisão, micro-ondas, máquina de lavar, geladeira, não tem nada demais. Hoje tô pagando R$ 120 (das parcelas) e, mês passado, a conta da Celpe já veio R$ 17. Se somar, já estou economizando antes mesmo de quitar o financiamento”, comemora Lucia.

De acordo com dados da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), o Brasil já possui hoje 630 megawatts (MW) de potência instalada em sistemas de microgeração e minigeração distribuída solar fotovoltaica. Em número de sistemas instalados, os consumidores residenciais já lideram a lista da geração para consumo próprio, representando 75,5% do total. “A geração distribuída solar fotovoltaica é um mercado que existe no Brasil desde 2012, com a regulamentação da Aneel. Desde 2016, no entanto, o crescimento do segmento tem acontecido com mais força por causa de mudanças feitas na regulamentação, permitindo que as pessoas não só gerem para o próprio consumo, mas também se reúnam em associações ou consórcios para gerar energia solar fotovoltaica para consumidores”, diz o presidente-executivo da Absolar, Rodrigo Sauaia.

Segundo ele, desde 2016 para cá, o País vem passando por importantes transformações. Conforme a associação hoje já são mais de 70 linhas de financiamento disponíveis e também há mudanças na tributação, com incentivos estaduais para desenvolvimento do mercado. “Em Pernambuco, por exemplo, temos o PE Solar, que ajuda a dinamizar o setor. Pernambuco já é o décimo Estado em potência instalada no País, com 19 MW de capacidade e investimentos de R$ 100 milhões no acumulado histórico desde 2012”, detalha.

Parte desse movimento iniciado em 2016, o empresário André Caldas, 45, resolveu investir na instalação de 11 placas solares na sua casa de campo em Aldeia, Camaragibe. Embora passe lá apenas os fins de semana, de forma remota, o empresário consegue redistribuir o excedente do que é produzido em Aldeia para atender também 70% do consumo de energia do apartamento onde mora, no bairro de Casa Forte, Zona Norte do Recife. “Estou agora avaliando ampliar a instalação para chegar a atender 90% das minhas necessidades aqui do apartamento. Em Aldeia hoje já não pago nada, só a tarifa mínima da Celpe. Em Casa Forte eu chegava a pagar R$ 500, e já pago R$ 200 agora, com pretensão de chegar a pagar só a taxa mínima da Celpe no meu endereço residencial também”, revela o empresário, que também financiou a instalação e paga parcelas baseadas no valor da sua conta de energia.

O mecanismo usado por Caldas faz parte da ampliação do programa PE Solar feita no ano passado. Com isso, o consumidor desconta na própria conta de luz a geração solar consumida. Se ele gerar o total que consome, paga apenas a taxa mínima cobrada pela Celpe (R$ 24 para residências e R$ 80 para comércio). Em caso de geração excedente, o valor pode se transformar em bônus a ser usado em até 60 meses ou ser transferido para outro imóvel registrado em nome do mesmo proprietário da unidade geradora. “As unidades distribuidoras têm um papel importante na geração distribuída porque foi justamente esse sistema de compensação que aumentou o uso da energia solar residencial no País. Até o momento, temos no Estado 1.332 unidades consumidoras cadastradas, com uma média de 80 a 90 unidades solicitantes por mês. Atualmente estão em andamento quase 400 pedidos só na Celpe”, afirma a gerente de relacionamento institucional da companhia, Érica Ferreira.

Liberação da Celpe

Embora a Celpe assegure já manter um departamento específico para atender tanta demanda, segundo a Absolar, as distribuidoras ainda trazem grandes dificuldades para desenvolvimento da geração distribuída. “Ainda existe um volume grande de reclamações por parte de empresários e consumidores, porque as distribuidoras chegam a descumprir prazos e exigir coisas que nem são necessárias”, queixa-se o presidente da associação. Em Pernambuco, a Celpe garante que o prazo máximo para liberação da instalação é de 34 dias a partir da apresentação de um projeto à companhia.

Jornal do Commercio


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