Pernambuco: costas largas para o crescimento

A terceira reportagem da série Folha Negócios-Cenários Ceplan 2019 mostra que a economia do Estado vem crescendo acima da nacional e gerando um clima de otimismo, mas sem exageros

Por: Etiene Ramos

Novas encomendas podem reativar os empregos da indústria naval, uma das matrizes da nova economia do Estado

Novas encomendas podem reativar os empregos da indústria naval, uma das matrizes da nova economia do Estado
Crédito: ARTHUR DE SOUZA

Economia de Pernambuco vem reagindo à crise que tomou conta do País a partir de 2014. Pelos dados disponíveis até o terceiro semestre de 2018, o Produto Interno Bruto (PIB) estadual teve um aumento de 2,2% em relação ao mesmo período de 2017. Enquanto aguardamos a divulgação do quarto trimestre, fica a estimativa de que a economia pernambucana cresça entre 2% e 2,5% em 2018.

Segundo Aldemir do Vale, a Jeep deve puxar crescimento

Segundo Aldemir do Vale, a Jeep deve puxar crescimento
Foto: Anderson Stevens/arquivo folha

Os índices são superiores aos do PIB nacional que, no ano passado, cresceu 1,1%, repetindo uma tendência que vem ocorrendo desde 2017 e que anima o governo estadual numa ofensiva para atrair novos investidores, nacionais e internacionais. “Estamos otimistas com 2019. É um novo ciclo, novo momento do governo federal, e temos esperança que tomem decisões na direção correta para trazer mais estabilidade ao País e segurança para que o investimento privado volte a acontecer.

Estamos montando nosso planejamento para os próximos quatro anos com projetos para resgatar os investidores com ações diretas de apresentação dos potenciais do Estado”, diz o secretário de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco, Bruno Schwambach. “A hora de investir, preparar os projetos é agora. Se demorar um pouco perde-se o timing de uma recuperação que pode acontecer ainda este ano”, completa.

Economista e sócio-diretor da Ceplan Consultoria Econômica e Planejamento, Aldemir do Vale, estima que em 2019 Pernambuco pode crescer ainda mais com base na ampliação de investimentos que já se consolidaram no Estado, como a fábrica da Jeep. “O grupo italiano Fiat Chrysler vai investir U$S 14 bilhões no Brasil e a maior parte vai ser em Pernambuco. Isso vai ampliar a cadeia automobilística no Estado”, comenta.

A expectativa é compartilhada pelo presidente em exercício da Federação das Indústrias de Pernambuco (Fiepe), Alexandre Valença, que aguarda o aquecimento do mercado de automóveis para a implantação da cadeia de fornecedores da Jeep, os esperados sistemistas. Com a retração das vendas e da produção do polo de Betim, em Minas Gerais, só chegaram 11 das cerca de 40 empresas previstas. “Vemos 2019 com otimismo e, ao mesmo tempo, preocupação com os novos passos e medidas políticas que impactam diretamente no resultado do setor industrial. Se o quadro que está desenhado vier a acontecer, teremos uma perspectiva muito boa para a indústria”, afirma.

O setor, que responde por 19,7% do PIB estadual, teve destaque na produção física em 2018 que cresceu 4,1% em 2018 em comparação com 2017. De acordo com a Fiepe, os melhores resultados apareceram e têm margem para aumentar este ano na indústria alimentícia que vem crescendo com exemplos como a multinacional Mondelez e as pernambucanas Vitarella, Capricce e Tambaú – elas podem atacar bem o mercado nacional e exportar. Outro setor que pode ser alavancado é o têxtil, a partir da conclusão da Petroquímica de Suape pela mexicana Petrotemex.

Já o sucroalcooleiro vem avançando em tecnologias que criam novas variedades e conseguem fazer o DNA da cana. “Está bem evoluído para melhorias genéticas na mesma velocidade de outras culturas como soja e milho. É um setor estável depois da grande queda de 29 milhões de toneladas de canas para 15 a 19 milhões, por safra, dependendo do clima”, avalia a Fiepe.

Suape, indústria naval e novas cadeias

A melhora no mercado de veículos pode trazer mais sistemistas da Jeep para Goiana

A melhora no mercado de veículos pode trazer mais sistemistas da Jeep para Goiana – Crédito: Mandy Oliver/Arquivo Folha

Criado há 40 anos, o Complexo Industrial e Portuário de Suape, conseguiu, nos últimos anos, trazer praticamente tudo que foi planejado lá atrás. Da construção do porto e da estrutura do Complexo à refinaria, formando as cadeias produtivas de petróleo e gás, aos terminais de cargas especializadas, Suape consolidou-se como um ativo de alto valor do Estado para atrair investimentos globais.

Porém, mudanças promovidas pela Nova Lei dos Portos, em 2013, frearam este motor ao mesmo tempo em que o País vivia sua pior recessão, retirando a autonomia portuária para realizar licitações e arrendamentos. “Passamos cerca de cinco anos sem viabilizar nada porque o governo federal tomou a autonomia, ficou tudo parado. Em dezembro passado, foi editada uma portaria com regras e um roteiro para a autonomia voltar como um todo. Estamos cumprindo as etapas com a Secretaria dos Portos, montamos cronograma e esperamos voltar a ter autonomia até o final do ano”, relata o secretário de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco, Bruno Schwambach.

O Estaleiro Atlântico Sul (EAS) e o Vard Promar – elos importantes da cadeia naval – viraram exemplo de capacidade ociosa instalada em Pernambuco e aguardam a definição de novas encomendas para não fechar, afundando investimentos de porte e a formação de um novo segmento, de alto valor agregado, da nossa economia. O Vard, do grupo italiano Fincantieri, que tem 230 anos e já produziu mais de dois mil navios de guerra, participa da concorrência para a construção de quatro corvetas da Marinha do Brasil e o EAS espera resolver entraves para firmar encomendas de armadores internacionais. “Caso não haja um trabalho político, o setor naval vai ser exterminado. Tivemos participação na preparação da mão de obra e este custo será perdido pelo País. A produtividade dos operários, por tonelada de material trabalhado, já está no mesmo nível da Coreia do Sul, tirando o custo Brasil. Com as corvetas e novas encomendas do EAS, os estaleiros terão anos de sobrevida”, diz Alexandre Valença.

Para Valdeci Monteiro, Pernambuco deve alçar novos voos

Para Valdeci Monteiro, Pernambuco deve alçar novos voos
Foto: Mandy Oliver/Arquivo Folha

Para Schwambach, a reversão do planejamento da Petrobras que não fará mais encomendas de navios aos estaleiros nacionais, como previa o Promef – Programa de Modernização da Frota da Transpetro – braço logístico da petroleira, trouxe uma crise na construção naval no Brasil e nossos estaleiros foram atingidos em cheio. Para piorar, regras que prejudicam as possibilidades de aumento da cabotagem e encomendas navais favorecem uma operação de desmonte. “Estamos tratando isso com o governo federal para melhorar toda a indústria naval, para remontar a cadeia. Solicitamos que parte do Fundo de Marinha Mercante seja direcionada para renovação da frota da Marinha do Brasil, já existe um projeto de lei neste sentido, o que vai permitir reativar não apenas nossos estaleiros, e quantidade de empregos que tivemos, mas os de todo o Brasil”, acredita.

Economista e sócio-diretor da Ceplan Consultoria Econômica e Planejamento, Valdeci Monteiro, acredita que Pernambuco tem respaldo para alçar novos voos. “Para além da crise econômica e política nacional, que ainda reflete na dinâmica estadual, num cenário pós-crise, Pernambuco é um dos Estados que podem se destacar na retomada, sobretudo por ter vindo de um momento excepcionalmente favorável, que deixou o legado da maturação de um importante bloco de investimentos, que sinaliza para novos desdobramentos”, afirma.

Folha PE


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *