O desafio de administrar o Edifício Pirapama

Edifício Pirapama, no Centro do Recife, é uma construção moderna situada na Avenida Conde da Boa Vista

Prédio foi projetado pelos arquitetos Delfim Amorim e Lúcio Estelita / Foto: Leo Motta/JC Imagem

Prédio foi projetado pelos arquitetos Delfim Amorim e Lúcio Estelita
Foto: Leo Motta/JC Imagem

Cleide Alves

O Edifício Pirapama, projetado em 1956 na Avenida Conde da Boa Vista, no Centro do Recife, é um ano mais velho que o Condomínio Holiday, interditado semana passada em Boa Viagem, na Zona Sul da cidade. Com 13 andares, mais cobertura e dois pisos de sobreloja, ele é menor que o Holiday, um dos primeiros prédios altos do bairro, com 18 pavimentos. A falta de manutenção provocou a desocupação do imóvel. O Pirapama tenta, com poucos recursos, fazer as obras necessárias para preservar o condomínio.

“Soubemos da interdição e ficamos preocupados. Problemas temos muitos, mas estamos aos poucos executando os consertos”, afirma Selma Bezerra de Almeida, síndica do Pirapama há quatro anos e moradora do prédio há 30 anos. Símbolo da arquitetura moderna no Recife, assim como o Holiday, o Pirapama foi projetado pelos arquitetos Delfim Amorim (1917-1972) e Lúcio Estelita para uso misto. Das 226 unidades, 144 são ocupadas com moradia. As demais, distribuídas no térreo e nas sobrelojas, funcionam com comércio e serviço.

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Edifício Pirapama, na Avenida Conde da Boa Vista, Centro do Recife, tem 13 andares mais a cobertura

Fotos: Leo Motta/JC Imagem
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A rede hidráulica é um dos maiores problemas do prédio, de acordo com a síndica. “Os canos de ferro, da época da construção, estouram e provocam vazamentos. Quando isso acontece, substituímos por PVC e assim vamos solucionando. Não temos condições de trocar todos os canos de uma vez”, declara Selma Bezerra. Recentemente, ela usou o dinheiro de uma dívida de pagamento de condomínio para fazer a modernização de um dos elevadores. A intervenção será concluída este mês.

A inadimplência no Pirapama chega a 40% (desse total, 25% estão na Justiça) e é o maior entrave para a realização das melhorias no prédio, que tem dois blocos. “Faço de tudo para negociar o valor, numa cobrança extrajudicial, mas quando não há um acordo, a questão vai para a Justiça”, diz ela. Por exigência da Celpe, o condomínio teve de recuperar a subestação de energia elétrica, com a troca de todo o cabeamento. “Concluímos o serviço do jeito que foi pedido, só falta a Celpe trazer o transformador”, informa.

Gambiarras nos apartamentos são frequentes e a Celpe tem feito fiscalizações para eliminar ligações clandestinas, diz Selma. O Corpo de Bombeiros cobrou do condomínio a colocação de mangueiras para combate a incêndio, que ainda estão sendo providenciadas. “Temos muita coisa para resolver, gostaria de encontrar parceiros para recuperar a fachada do prédio e meu sonho é contratar um eletricista e um encanador para o quadro de funcionários, como no passado”, afirma.

“O Pirapama hoje tem mais qualidade, não se pode fazer milagre, mas com os poucos recursos a situação está melhorando”, destaca Vera Pereira, residente no edifício, na Boa Vista, há 15 anos. “Moramos perto de tudo, de shopping center, de mercados públicos, de faculdades e de bares, nosso transporte é apenas o elevador. Estamos a 20 minutos de Boa Viagem e a 20 minutos de Olinda, somos o Centro, apesar de tudo que possa ser desfavorável, viver no Pirapama é muito bom”, ressalta.

DEBATE

A conservação de prédios antigos usados como moradia popular, a exemplo do Holiday e do Pirapama, sejam eles protegidos ou não por lei, é assunto que vem sendo discutido por arquitetos do Brasil e do mundo. “Há uma consciência internacional de especialistas sobre a importância de se recuperar as edificações, eles entendem que o imóvel custou dinheiro para ser construído e a possibilidade de recuperação existe”, declara a arquiteta Guilah Naslavsky, professora de arquitetura e urbanismo da Universidade Federal de Pernambuco.

No Brasil, diz ela, se discute muito. Porém, o debate não se traduz em ações concretas. “Há prédios deteriorados no exterior, mas aqui se faz muito pouco”, lamenta Guilah Naslavsky. Em 2006 ela participou, na Finlândia, de curso para conservação da arquitetura moderna com foco nos conjuntos habitacionais populares das décadas de 1960 e 1970. “Não eram prédios de arquitetura significativa, mas tinham a função de moradia e estavam sendo restaurados”, observa a professora.

Em 2008, acrescenta Guilah, o arquiteto e professor da UFPE Fernando Diniz, que também fez a capacitação na Finlândia, coordenou um curso no Grande Recife sobre conservação da arquitetura moderna, para profissionais da América Latina. “O objetivo era formar gente para a conservação da arquitetura do cotidiano, a cidade precisa preservar essas edificações do dia a dia, simples, que não estão nas listas de tombamento, mas compõem um patrimônio simbólico, como o Holiday.”

A professora reconhece que em lugares com pessoas bem informadas, com mais cultura e acesso a educação, é mais fácil desenvolver essa consciência de conservação. “O morador precisa saber identificar valores do prédio onde vive, isso acontece quando a pessoa percebe que aquela qualidade de vida, naquele lugar e pelo preço que paga ela não teria em outro lugar”, comenta.

JC Online


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