Negócios de impacto social viram nicho para investimentos no País

Segundo levantamento da Ande Brasil, esse tipo de negócio já movimenta US$ 60 bilhões em todo o mundo

No Porto Social, 170 projetos já foram escalonados em quatro anos / Foto: Givysson Rodrigues/Porto Social.

No Porto Social, 170 projetos já foram escalonados em quatro anos
Foto: Givysson Rodrigues/Porto Social.

Lucas Moraes

De empresário a empreendedor social, do foco no lucro ao investimento de valor. Nos últimos anos, o universo empresarial do Brasil e do mundo tem sido norteado por uma nova prática: os negócios de impacto social. Se antes, uma empresa e uma ONG poderiam, no máximo, trabalhar em conjunto, agora são uma coisa só a movimentar US$ 60 bilhões a nível global, com crescimento de 7% ao ano, segundo levantamento da Ande Brasil.

Pernambuco, embora ainda não tenha números fechados desse setor por aqui, já se destaca como um polo de empreendedorismo social. Recife é uma das poucas capitais do País a fomentar esse tipo de negócio, com um incubadora voltada especificamente para isso. “Os projetos sociais hoje vivem um processo de profissionalização, estão percebendo que precisam de uma sustentabilidade financeira. Nós damos todo o apoio para que eles se percebam como ‘empresa social’ e entendam que precisam sim gerar receita”, diz o diretor educacional do Porto Social, Pedro Verda.

O Porto surgiu em 2016 com o intuito de desenvolver negócios de impacto desde o desenho do projeto até a incubação e atração de investimentos. Nos quatro anos de atuação já auxiliou 170 negócios. “O que a gente faz é uma espécie de aceleração por rede, unindo empresas aos projetos e trazendo esses recursos indiretamente. Este ano uma das nossas métricas será focada em saber quanto de investimento a gente tem conseguido intermediar, já que há um crescimento do interesse de empresas e do poder público em investir”, afirma Verda.

O 3º ciclo de incubação, iniciado este ano, envolve 35 empresas. Uma deles, o ProlEduca é responsável por garantir o acesso à educação de qualidade por preço acessível a pessoas com restrição de renda. Fruto de um investimento inicial de R$ 20 mil, o negócio consiste numa plataforma que, a partir da análise de perfil socioeconômico, garante descontos de até 50% em escolas parceiras. “A plataforma surgiu porque eu mesmo tive dificuldade para pagar meus estudos. Começamos com recurso próprio investido por mim e meus sócios, com 50 escolas. Hoje já são mais de 200. Nosso objetivo é conseguir escalonar o negócio internacionalmente”, explica um dos sócios, Petrus Vieira, 33. O faturamento da empresa já chega aos R$ 800 mil, com a cobrança de matrícula.

Embora o Porto seja espaço para projetos praticamente consolidados, por lá também chegam muitos embrionários. A dupla de arquitetas Denise Durey, 39, e Giuliana Lobo, 26, almejam abrir escritórios de arquitetura em comunidades, com a possibilidade de obras até 35% mais baratas. “O custo na arquitetura está muito atrelado ao perfil do cliente, e a maioria dos problemas nas construções da periferia são coisas simples, mas que acabam gerando outros problemas na vida das pessoas. De forma prática, acreditamos que quando a casa é um ambiente mais seguro até mesmo a apropriação do espaço urbano é transformada”, afirma Denise, que espera lançar o primeiro escritório já no 2º semestre de 2019.

Outro exemplo de como a ajuda às pessoas pode ser uma via de mão dupla é dado pelo empreendedor social Ed Pereira, 42. Ainda criança, aprendeu com seus pais, Miguel Mendonça e Socorro Mendonça, a ser “Filantropo à moda antiga”, à frente de uma instituição de cursos profissionalizantes. “Há três anos, eu e outros sócios começamos a desenvolver o aplicativo Médicos do Bem, que está 70% pronto. A ideia é que os profissionais de saúde doem atendimento e deem um ‘match’ com quem precisa ser atendido”, conta Pereira. A monetização da plataforma vem com publicidade de empresas parceiras, e cupons de desconto delas oferecidos aos usuários. “Se eu lançasse hoje, tranquilamente teria 5 mil profissionais. Queremos ser a maior clínica social do mundo”, planeja o empreendedor, que investiu R$ 50 mil e espera prospectar R$ 100 mil para lançamento da plataforma.

Investidores

Enquanto o desejo de monetizar o negócio e ao mesmo tempo fazer o bem cresce entre os empreendedores, do lado dos investidores o interesse também aumenta. De acordo com o Panorama do Setor de Investimento de Impacto no Brasil, feito pela Ande entre 2016 e 2017, de um total de 33 investidores ouvidos, 22 fizeram investimento de impacto, totalizando US$ 131 milhões de dólares por meio de 69 operações. Para 2019, a captação deve chegar aos US$ 190 milhões.

Ainda segundo o levantamento, dois terços dos investimentos foram feitos em empresas no estágio de expansão ou crescimento, enquanto um terço foi feito em empresas ainda em estágio inicial. Entre os setores, o maior número de operações está concentrado no segmento de tecnologia da informação e comunicação (TICs), com 23% de todas as operações, seguido de educação (14%) e saúde (10%). Considerando o volume investido, TICs aparece com US$ 54 milhões, seguido de geração de renda (US$ 26 milhões) e energia e inclusão financeira (US$ 10 milhões cada).

Justamente o setor de tecnologia tem sido o foco de umas das gestoras de investimento de impacto pioneiras no País, a Vox. A gestora funciona como qualquer outra, capta recurso dos investidores e fundos de investimento institucionais, faz a análise das melhores empresas, compra participação acionária e vira sócio da empresa para fazer o negócio crescer e angariar mais valor. “Do mesmo jeito que você coloca seu dinheiro no banco, outras pessoas buscam mais riscos, investindo. O diferencial da nossa operação é a causa. Infelizmente, muitas das oportunidades de investimento que atualmente existem por aí não estão alinhadas com o futuro que as pessoas querem criar”, afirma head da Vox crowd, Gabriela Chagas.

A Vox atualmente mantém dois fundos. Um de R$ 84 milhões e outro que ainda está em captação. No 1º foram 10 empresas receberam investimento através de dívida (contrato de empréstimo com possibilidade de participação societária), oito através de equity (aquisição de participação societária) e uma nos dois modelos.

JC Economia


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