Maurício de Nassau: o Brasil holandês como ele contou

Cepe lança neste domingo (25) livro sobre o governo de Maurício de Nassau no Nordeste brasileiro. É a primeira tradução completa do Barléus feita do original em latim

Olinda retratada por artistas da corte de Nassau no século 17 / Gravura do livro Barléu/Divulgação

Olinda retratada por artistas da corte de Nassau no século 17 / Gravura do livro Barléu/Divulgação

Cleide Alves

Fonte de consulta para historiadores, urbanistas e estudiosos da arte desde o século 19, o livro Rerum per octennium in Brasilia (História dos feitos recentemente praticados durante oito anos no Brasil) ganhou uma nova edição da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe). A obra foi publicada em 1647 e narra o período da administração do conde João Maurício de Nassau no Brasil holandês, no século 17. Desde 1940 circulam no País edições em língua portuguesa, mas essa é a primeira tradução completa feita do original, escrito em latim.

Barléu – História do Brasil sob o governo de Maurício de Nassau (1636-1644) será lançado neste domingo (25/11), às 16h, no Instituto Ricardo Brennand, localizado na Rua Mário Campelo, 700, na Várzea, bairro da Zona Oeste do Recife. Possivelmente encomendado por Nassau para registrar e enaltecer sua gestão no Nordeste brasileiro, o livro foi organizado pelo humanista Caspar van Baerle ou Gaspar Barleus, (1584-1648) com textos, mapas, gravuras, paisagens, cenas das cidades e retrato do conde.

A tradução do original para o inglês, incluindo mais de 300 notas explicativas e prefácio é da pesquisadora holandesa que vivia nos Estados Unidos Blanche T. van Berckel-Ebeling (1928-2011). “Ela morreu pouco antes de o livro ser publicado”, informa o editor da Cepe, Wellington de Melo. O grande mérito do livro, diz ele, é tornar mais acessível a linguagem de Barleus. As 520 páginas são divididas em capítulos, o que não era comum no século 17, para facilitar a leitura.

“Quem procura um assunto específico pode ir direto naquele capítulo. E as notas, que esclarecem trechos até então obscuros, também estão separadas dessa forma, no final do livro”, comenta Wellington de Melo. No capítulo 16, que trata dos Elogios da conduta e dos feitos do conde João Maurício como governador do território brasileiro de 1637 a 1644, o autor afirma que após o retorno de Maurício de Nassau à Europa, “perdeu-se a concórdia entre as várias partes, e começaram-se violências entre elas”. E acrescenta que “a desatenção e infidelidade dos nossos aos juramentos, a audácia do inimigo, a rendição das fortalezas e as perdas sofridas pelos soldados holandeses” contribuíram para o fim da ocupação holandesa no Brasil.

Em nota, a tradutora afirma que “essa é uma simplificação exagerada de um situação muito complexa” e que “há muitas razões ou explicações diferentes do porquê de a colônia ter sido perdida”. Segundo a tradutora, “as duas tentativas desastrosas conhecidas como Batalha dos Guararapes, e o longo cerco do Recife, que foi resistido como um esforço final para manter algum território, são provas suficientes de uma resistência armada na qual os holandeses se engajaram para manter os portugueses rebeldes a uma distância segura”.

Nova leitura

O conde alemão João Maurício de Nassau (1604-1679) desembarcou em Pernambuco em janeiro de 1637. Estava a serviço da Companhia das Índias Ocidentais, a empresa que financiou a ocupação flamenga no Nordeste açucareiro de 1630 a 1654. Erudito e humanista, interessava-se pelas artes e pela arquitetura. “Nassau era um bon-vivant e as obras que ele realizava, como jardins e construção de pontes, não eram vistas com bons olhos porque não davam lucro à companhia”, comenta Wellington de Melo.

Para ele, uma das indicações de que o livro teria sido encomendado é Barleus ter fechado os olhos para os erros cometidos por Maurício de Nassau nos oito anos em que esteve à frente do governo holandês em terras brasileiras. Gaspar Barleus escreveu a publicação a partir dos registros artísticos e históricos (costumes, produção agrícola, clima, geografia) produzidos sobre o Brasil por médicos, botânicos, cartógrafos, pintores e gravuristas que faziam parte da corte de Nassau.

O livro editado pela Cepe é inédito no Brasil e traz uma nova interpretação para os feitos de Nassau no Brasil holandês. “É uma tradução diferente da primeira edição portuguesa feita por Cláudio Brandão. A leitura é indicada para pesquisadores e para o público geral interessado na história do País”, diz Wellington de Melo. Barléu – História do Brasil sob o governo de Maurício de Nassau (1636-1644) será vendido pelo site da Cepe, em livrarias do Estado e provavelmente terá distribuição nacional. A publicação custa R$ 100 (capa dura), R$ 90 (brochura) e R$ 28 (e-book). A tradução do inglês para português é de Henry Widener.

JC Cidades


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