”Crise das livrarias Cultura e Saraiva é apenas a ponta do iceberg”, diz livreiro

Enquanto cresce lentamente o número de leitores no Brasil, cai o de livrarias

Livraria Cultura no Bairro do Recife fechou as portas em julho deste ano / Foto: acervo JC Imagem

Livraria Cultura no Bairro do Recife fechou as portas em julho deste ano
Foto: acervo JC Imagem

Edilson Vieira
Repórter de Economia

O mercado brasileiro de livros vai fechar o balanço de 2018 com mais leitores e menos livrarias. No primeiro semestre deste ano, o setor registrou faturamento 9,97% maior em relação ao mesmo período do ano anterior. O volume de vendas também subiu 5,24%. A tendência é fechar o ano de 2018 com números positivos, depois da queda de 9% em 2016 e um tímido crescimento de 3% no ano passado. Mas o que era para ser comemorado é apenas um capítulo da pior crise que o setor enfrenta nos últimos anos, com fechamento de pequenas, médias e grandes empresas. Panorama do Setor Cultural, feito pelo IBGE, mostra que em 2001, 42% dos municípios do País tinham livrarias, número que caiu para 27% em 2014.

As dificuldades financeiras das duas maiores redes de livrarias do País, Cultura e Saraiva, é a parte mais visível deste cenário. A primeira, fechou 20 livrarias (incluindo a megastore do Bairro do Recife, no último mês de julho), e está em processo de recuperação judicial, com uma dívida com fornecedores estimada em R$ 300 milhões. Segundo o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), em março deste ano, a Saraiva comunicou às editoras que não pagaria os valores relativos às vendas do último período de Natal, volta às aulas e títulos universitários. Ainda segundo o Snel, no mês passado, a Cultura também interrompeu pagamento, descumprindo os acordos de confissão de dívida pactuados com as editoras.

Já a Saraiva divulgou na semana passada seu mais recente balanço. A dívida acumulada no semestre é de cerca de R$ 120 milhões, fazendo com que a empresa desista do comércio de produtos eletrônicos em suas lojas, feche pontos de venda deficitários e demita 700 funcionários. Pela Lei de Falências, a Saraiva precisaria convencer pelo menos 60% dos seus credores para entrar com o pedido de recuperação extrajudicial. As condições propostas pela livraria incluem concessão de desconto de 40% na dívida e prazo de pagamento de até dez anos.

LIVRARIAS

A ideia de recuperação extrajudicial da Saraiva foi rechaçada pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), que prefere que a empresa parta direto para a recuperação judicial, um processo mais rápido. Na assembleia do próximo dia 22, o sindicato vai expor a seus associados o conteúdo das conversas com ambas as empresas. Juntas, as redes Cultura e Saraiva chegam a representar quase 40% do faturamento de algumas editoras. “Ainda não chegamos a uma fórmula para salvar essas redes, afetadas por problemas de gestão. O Snel tem se empenhado em propor o debate e a união das editoras, que, sem receber pagamentos, vêm sofrendo com perda de capital de giro, redução do quadro de funcionários e do número de lançamentos. Lamentavelmente, a crise acontece às vésperas do período mais importante do ano, com as vendas da Black Friday, do Natal e da volta às aulas”, afirmou em nota o presidente do Snel, Marcos da Veiga Pereira.

Para o presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL), Bernardo Gurbanov, o aumento das vendas em 2018 é apenas uma lenta recuperação do mercado perdido nos últimos anos. Para ele, esta é a pior crise que o setor livreiro já enfrentou. “A recessão já vinha acontecendo há quatro anos. A Saraiva e a Cultura são apenas a ponta do iceberg. Muita gente já ficou pelo caminho, a exemplo da rede La Selva, conhecida pelas livrarias nos aeroportos. Ela não conseguiu cumprir as metas da recuperação judicial e acabou falindo”, lembra Gurbanov.

Pernambuco registrava em 2014, 73 livrarias, 64 delas no Recife. O presidente da ANL diz que o Brasil tinha, em 2013, 3.095 livrarias. Hoje são cerca de 2.500. Um número baixíssimo, segundo ele. “A Unesco recomenda uma livraria para cada 10 mil habitantes. Deveríamos ter, então, pelo menos 20 mil livrarias”, afirma.

SAÍDAS

Uma crise tão ampla não atinge apenas as livrarias, mas também as editoras. E não faltam críticas à política nacional para o setor. Presidente da Libre (Liga Brasileira de Editoras), que reúne cerca de 160 editoras independentes, Raquel Menezes acredita que o fim do Programa Nacional Biblioteca nas Escolas (PNBE), em 2014, aumentou a dependência de muitas editoras das vendas no varejo. Entre 2000 e 2014, o PNBE garantiu a compra e distribuição de 230 milhões de livros para bibliotecas escolares. Um investimento de R$ 891 milhões no período.

Em relação a possível concorrência dos livros eletrônicos sobre os tradicionais impressos, Raquel diz que isso está longe de ser um problema. “O e-book representa 1% do total de faturamento de livros no Brasil. Mesmo nos Estados Unidos a venda de e-books é menor”, afirma. Raquel chama a atenção para outra concorrência, segundo ela, desleal. A dos grandes atacadistas que vendem livros, muitas vezes apenas como chamariz para outros produtos, oferecendo descontos irreais ou até mesmo abaixo do preço de custo. Ela diz que é preciso respeitar a cadeia produtiva do livro que envolve editoras, distribuidoras, editoras e livrarias. “Um dos pontos que devem ser revistos é a consignação. Oitenta por cento dos livros vendidos atualmente chegam às lojas neste regime de venda que penaliza o editor, caso a livraria venda e não faça o repasse a quem botou o dinheiro na frente custeando a produção”, afirma.

O setor defende ainda a criação de uma lei do preço fixo, que estipule o teto máximo de 10% de desconto para os lançamentos. Esse teto seria válido por um ano. Pedido neste sentido está parado desde março deste ano na Casa Civil da Presidência da República. Representantes do setor reconhecem que o pleito tem poucas chances de avançar. Segundo a Associação Nacional de Livrarias (ANL), desde a década de 80, parte da Europa adota uma política regulatória de preço para os lançamentos, aplicando um desconto máximo de 5% sobre o preço de capa. O presidente da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), Ricardo Leitão, mostra que é possível seguir em frente em meio à tormenta. A Cepe está completando 10 anos em 2018 com um robusto catálogo de 340 títulos neste período e 11 lançamentos apenas este mês. É a editora oficial que mais publica livros no Brasil. Leitão diz que publicar é uma espécie de “missão” para o editor. “Os livros representam a menor parcela do faturamento da Cepe (menos de 4%). Mesmo assim, investimos em relançamentos de títulos clássicos e novos autores. Pernambuco tem atualmente 15 editoras, apesar deste cenário difícil para o mercado.”

Leitão diz que o segmento livreiro tem que se reinventar, tanto em termos de gestão, como não dando às costas às novas tecnologias. “O setor de comunicação todo está se reinventando”, conclui. Ele admite que o livro custa caro para a maioria da população, mas acredita que um preço mínimo só é possível com o subsídio do governo, embora a Cepe tenha orçamento próprio. Aponta que a publicação de edições com matérias-primas mais baratas também é uma saída. A necessidade de formar novos leitores é uma preocupação de todos os entrevistados ouvidos nesta reportagem. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, mais da metade da população brasileira se considera leitora, embora leia menos de cinco livros por ano. A Bíblia é o preferido. Ainda segundo a pesquisa, 30% dos brasileiros adultos nunca compraram um livro.

JC Economia


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