No Recife, estruturas em estilo bizantino são símbolos de força sofrem com depredação

Só restam duas delas no Recife, mas apenas uma ainda funciona como sanitário público; apesar da manutenção que é feita, o espaço é alvo de arrombamentos e depredações – até os vasos sanitários já foram roubados

Por: Isabelle Barbosa (texto) e Brenda Alcântara (fotos)

Banheiros Bizantinos são depredados, mas resistem no Recife
Foto: Brenda Alcântara/Folha de Pernambuco

Projetados estrategicamente para serem construídos próximos ao antigo Porto do Recife, no bairro de Santo Antônio, em 1915, os banheiros públicos centenários em estilo bizantino hoje fazem parte da arquitetura histórica do Recife. Atualmente, são símbolos de resistência, diante dos arrombamentos e depredações que já sofreram e ainda sofrem por parte dos usuários.

Segundo José Luiz Mota Menezes, historiador e arquiteto do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico de Pernambuco, muitas casas da Capital ainda não tinham sanitários no início do século passado. Pensando em atender a essa demanda, o engenheiro sanitarista Francisco Saturnino Rodrigues de Britto (1864-1929) construiu, no início de 1917, banheiros públicos próximos ao Porto do Recife, local com grande circulação de pessoas. Os equipamentos têm características da arquitetura bizantina (estilo que se caracteriza por mosaicos vitrificados e por ícones e pinturas sacras normalmente feitas sobre madeira) – observados no “coroamento” do topo da estrutura – e foram instalados dentro do sistema coleta sanitária da época.

“Depois, as casas construídas no período de Saturnino passaram a ter sanitários. Isso fez com que o sanitarista abandonasse as construções públicas”, contou José Luiz. Ainda segundo ele, não existem registros sobre a quantidade de estruturas construídas na época com esse estilo. Atualmente, apenas duas continuam preservadas, mas somente uma ainda funciona como banheiro público.

As construções estão na avenida Mariz e Barros, bairro de Santo Antônio, e a outra na rua Dr José Mariano, no bairro da Boa Vista. Os banheiros da Mariz e Barros estão sob responsabilidade de uma cafeteria, que transformou os espaços em uma despensa e, também, em um lugar onde o vigilante do estabelecimento guarda seus pertences pessoais.

E pode?
Questionada se a empresa pode utilizar esse espaço dessa maneira, a Secretaria de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Recife (SDSMA) informou que, em 2016, recuperou as ruínas do antigo Cais do Imperador e que a obra incluiu a reforma dos banheiros públicos do local, que tiveram preservadas todas as características arquitetônicas originais. Ainda segundo a SDSMA, os banheiros foram transformados em local de apoio e vigilância. Quanto à concessão ao ponto comercial, informou que “ela foi feita por meio de uma chamada pública, como previsto em lei”.

Já o sanitário da rua Dr José Mariano continua funcionando e é alvo constante de arrombamentos e depredações. A reportagem da Folha de Pernambuco esteve no local e constatou pichações e falta de cuidados por parte da população. O equipamento público funciona todos os dias, das 7 às 19h e têm dois compartimentos, um feminino e outro masculino, os vasos são acoplados no chão, as descargas não funcionam e o cano da torneira foi arrancado.

Ronaldo Oliveira do Nascimento, funcionário responsável pela limpeza dos banheiros – Foto: Brenda Alcântara/Folha de Pernambuco

Ronaldo Oliveira do Nascimento é funcionário da Empresa de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb) e responsável pela limpeza do local. Ele disse que trabalha alí há três anos e que limpa as dependências, em média, cinco vezes por dia. A estrutura, afirmou, é danificada principalmente durante a madrugada.

“Já encontrei o cadeado quebrado diversas vezes. Antes, tinha vasos sanitários, mas arrancaram. Levaram inclusive a bomba elétrica que impulsionava a água da caixa reservatória para a torneira e descargas. As pessoas não cuidam”, reclamou Ronaldo.

Sem a bomba, ele é obrigado a usar um balde para retirar a água de uma cisterna que existe ao lado da estrutura para poder trabalhar. Ronaldo disse ainda que diariamente um caminhão-pipa faz a limpeza do entorno com jatos d’água. No momento da entrevista a Emlurb fez a entrega de materiais de limpeza no local. Segundo o funcionário, a autarquia envia semanalmente vassoura, rodo, papel higiênico, água sanitária, desinfetante etc.

Além deste, a Emlurb administra outros 14 banheiros públicos no Recife, todos de construção recente, em formato de caixa. Eles ficam na avenida Dantas Barreto; praça do Arsenal; praça do Sebo; Cais José Mariano; parque 13 de Maio; rua do Hospício; praça do Derby, lagoa do Araçá; praça do Hipódromo; praça de Campo Grande; parque de Apipucos; parque Santana; parque Caiara e parque da Macaxeira. Ainda segundo a Emlurb, todos os sanitários contam com funcionários responsáveis pelos serviços diários de manutenção e limpeza.

Banheiros Bizantinos são depredados, mas resistem no Recife.
Foto: Brenda Alcântara/Folha de Pernambuco

Folha de Pernambuco


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