Após 50 anos de galeria, Carlos Ranulpho relembra as primeiras obras que arrematou e prepara exposição surpresa

Crédito: Reprodução/Site Galeria Ranulpho

Prestes a completar 90 anos, Carlos Ranulpho tornou-se uma das grandes referências brasileiras quando o assunto é arte moderna. Seu amor por esse segmento começou de forma inesperada por volta de 1968. Foi através da venda de quadros, de um velho amigo, nas lojas de joias e artigos de decoração que ele descobriu seu fascínio pelo mundo das artes.

Até então, como joalheiro, Ranulpho começou a comercializar artigos de decoração, as vendas foram um sucesso, tendo como resultado seu nome publicado pelos jornais da cidade. Foi nesse período em que ele atinou para a criação de uma galeria de arte profissional, algo que ainda não era formalizado no Recife.

Intitulada Galeria do Ranulpho, o espaço ganhou vida em meio as ruas as margens do Rio Capibaribe. Dois anos depois, mudou-se para um casarão em Boa Viagem. Em 1977, ganhou uma filial na região nobre dos Jardins, em São Paulo, e desde 2001 funciona em um casarão histórico da Rua do Bom Jesus, no Recife Antigo.

Crédito: Reprodução/Site Galeria Ranulpho

Ao decorrer dos últimos 50 anos, inúmeros nomes renomados do universo das artes passaram por sua avaliação. Cícero Dias, Wellington Virgolino, Reynaldo Fonseca, José Cláudio e Vicente do Rego Monteiro, foram alguns da lista dos primeiros que expuseram no espaço.

Como forma de celebração, o pernambucano reconhecido por sua paixão artística promove a exposição Vicente em seis atos – uma celebração aos 50 anos da Galeria Ranulpho. A mostra aberta ao público, estará disponível de segunda a sexta-feira, das 10h às 12h e das 14h às 18h, até o dia 15 de junho.

Em meio as obras escolhidas para a exibição, estão presentes telas assinadas por Vicente do Rego Monteiro, o qual confessa ter sido um grande amigo e admirador. As peças selecionadas por ele foram produzidas nos anos 1960, período em que Vicente retomou a técnica de pintura tridimensional pela qual tornou-se conhecido, na década de 1920.

Tela de Vicente do Rego Monteiro – Crédito: Divulgação

Em entrevista, o marchand revela que as comemorações se estenderão ao longo do ano e que apenas uma exposição não é o suficiente para demonstrar sua felicidade por vivenciar essas 5. Além disso, ele relembra o início de sua carreira, desde a primeira obra adquiria e compartilha seus maiores encantos dentro o universo artístico. Confira:

Como foi o processo de seleção para as obras desta exposição, Vicente em seis atos – uma celebração aos 50 anos da Galeria Ranulpho?

Priorizei as telas de Vicente produzidas nos anos 1960. Foi uma fase extremamente produtiva e criativa para ele, que faleceu em 1970. Além de produzir abstratos, ele se empenhou em retomar a técnica de pintura tridimensional que desenvolveu nos anos 1920. Ele buscava cada vez mais a perfeição e arrisco a dizer que ele nunca esteve tão próximo de atingir essa meta como em sua última década de vida.

Por que a escolha por Vicente do Rego Monteiro e qual sua relação com o artista? 

Vicente é um dos maiores artistas do Brasil. Ser conterrâneo dele é uma honra. Ele foi pioneiro do modernismo e antecipou tendências vanguardistas anos antes da Semana de Arte Moderna de 1922, da qual participou com trabalhos seus. Ficamos amigos em 1969, pouco antes de sua morte. Tive o prazer de sediar duas exposições dele no começo da galeria, com ele ainda vivo. As duas foram um sucesso gigantesco, com todas as obras vendidas na abertura.

Tela de Vicente do Rego Monteiro – Crédito: Divulgação

Além desta vernissage, pretende realizar mais algum novo projeto em 2018 para celebrar os 50 anos de galeria?

É um ano de celebração! Depois dessa exposição, que fica em cartaz até 15 de junho, abriremos outra exposição, ainda surpresa. Também lançaremos minha biografia, escrita pelo jornalista Marcelo Pereira para a coleção “Memória”, da editora Cepe. Ainda vem muito mais pela frente…

Como é sua relação com os artistas pernambucanos? 

Minha relação com eles é de amizade, respeito e profissionalismo. Tenho o prazer de me relacionar com nomes como José Cláudio, Reynaldo Fonseca, Francisco Brennand, entre tantos outros.

Como você avalia o cenário das artes no nosso estado? 

Pernambuco sempre foi um expoente de excelência no que diz respeito à arte. Os artistas daqui são inventivos, críticos e originais. Eles têm uma sensibilidade muito forte e uma capacidade ímpar de expressar suas inquietações através da arte.

Crédito: Reprodução/Site Galeria Ranulpho

De que maneira as galerias poderiam contribuir para divulgação da arte pernambucana?

Valorizando a arte produzida aqui, dando espaço para os artistas, promovendo diálogos entre esses artistas e o público. A arte é, acima de tudo, um instrumento poderoso para a formação humana, cultural e social de um indivíduo. Então, devemos prezar por esse seu caráter transformador e as galerias precisam estar inseridas nesse contexto.

Ao longo de 50 anos de galeria e inúmeras mostras, qual a obra que mais lhe impactou?

Difícil escolher apenas uma obra, já que trabalhei com grandes artistas ao longo desses 50 anos de galeria. Mas tenho apreço e carinho especiais pelas obras de Vicente do Rego Monteiro dos anos 1960, período em que trabalhamos juntos. Ali ele demonstrou técnica e universo pictórico sem precedentes.

Quando e por que você resolveu abrir uma galeria?

No final dos anos 1960, eu já tinha uma carreira de 20 anos como joalheiro. Uma vez, expus algumas obras de um amigo na minha loja e isso chamou muito a atenção das pessoas. Ainda não havia galerias de arte profissionais na cidade e decidi investir nesse caminho. Preenchi uma lacuna que ajudou a profissionalizar o próprio campo artístico no estado.

Crédito: Acervo Pessoal

Qual o principal desafio de um marchand atualmente?

Adaptar-se aos novos tempos, às mudanças constantes, e manter um olhar vigoroso e oxigenado para a arte. Há muita informação para processar, então é importante manter-se fiel àquilo que sensibiliza o seu olhar.

O que você mais aprecia neste universo?

As novidades que o ofício me proporciona cotidianamente, achar novas telas, artistas interessantes… É algo que me dá imenso prazer. Adoro lidar com arte, com os universos diferentes dos pintores.

Qual foi a primeira obra que você adquiriu?

Minha primeira obra foi adquirida meio que sem querer, com muito afeto e carinho: desenhos de meu pai, que foi um grande artista, cartunista de jornais. Ele tinha uma visão crítica, mas bem-humorada e criativa da difícil realidade do país. Para mim, seus trabalhos são um tesouro.

Crédito: Reprodução/Site Galeria Ranulpho

Hoje em dia, as pessoas compram mais para decorar do que para colecionar?

Acho que um motivo não anula o outro. É possível decorar e colecionar ao mesmo tempo. Acredito que, acima de tudo, o que motiva as pessoas a comprar obras de arte é a segurança que esse investimento pode proporcionar. Por isso que sou seletivo com os artistas e telas com que trabalho, eu escolho aqueles que não ficam datados.

Existe alguma meta profissional que você ainda não alcançou? Alguma exposição?

Graças a Deus, tudo o que me propus a fazer, consegui realizar. Fui um joalheiro de sucesso, mas quis para mim o desafio de ser marchand. Era uma carreira incerta, mas segui minha intuição e sempre dei o meu melhor, com muito suor, trabalho e dedicação. O resultado são cinco décadas de sucesso da que provavelmente é a galeria de arte em atividade mais antiga do Brasil.

Blog JA – DP


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *