Barra de Catuama em Pernambuco inspira projeto de financiamento coletivo

Localizada no litoral norte, a Praia de Catuama pertence ao município de Goiana. Foto: Divulgação“O segredo da realização dos sonhos são os conspiradores. Conspiradores – aqueles que, juntos, respiram o mesmo ar”, assim escreveu um dia o educador e escritor Rubem Alves no livro Aprendiz de mim – um bairro que virou escola. Trazendo essa realidade para o nosso contexto hiperlocal, o cantor e compositor Tauã Pinheiro pode ser considerado um desses conspiradores?

Cria do litoral sul do Janga, bairro praiano de Paulista, o músico nos convida de forma poética para sonhar com ele. Recentemente lançou uma campanha de financiamento coletivo para resgatar o desejo do seu pai em transformar a Casinha do Cajueiro da família em Catuama, vila do município de Goiana, no Espaço Cultural do Cajueiro.

Tauã Pinheiro frequenta a Praia de Catuama há 30 anos. Foto: Divulgação

A campanha denominada de Catuama: Coragem grande é poder dizer sim! foi lançada na plataforma Catarse e está a menos de um mês de ser finalizada. No momento, com a ajuda de amigos e de uma rede de artistas que fazem parte do movimento, já foi arrecadado por volta de R$ 5 mil. Até agora contabiliza 52 apoiadores e a meta da campanha é atingir R$ 15 mil.

Em conversa com Tauã Pinheiro, o PorAqui buscou entender melhor os fascínios por trás deste lugar que há 30 anos já promove de forma espontânea intercâmbios de “arte, informação e afeto”.

PorAqui: Fale sobre o que Catuama e os encontros no Cajueiro ajudaram na tua formação de vida.

Eu frequento a Praia de Catuama desde que nasci. Uma praia sossegada, lugar onde eu e diversos amigos tiveram um primeiro contato íntimo com essa liberdade curiosa que a natureza te dá e mostra, ali em cima daquele cajueiro enorme observando os emaranhados e saguis ou ali na beira de uma praia cheia de recifes, corais e seres estranhos…

O pé de caju serve de plataforma para trocas de experiências e afetos. Foto: Divulgação

Assando castanha, mergulhando, peixe na telha, acho que todo esse ciclo de atividades que são coletivas beiram a simplicidade e viram poesia… a poesia maior, que pode ser expressada em diversos níveis artísticos, além de fortalecer os encontros e o vínculo com a vida afinal.

PorAqui: Como era a relação de Jorge, o seu pai, com o espaço.

Jorge foi quem buscou e achou aquele pedaço de paraíso. Há 30 anos Catuama era deserta e o pessoal que ia conhecer tinha que acampar. Nessa época só moravam pescadores. A inspiração maior para a consolidação desse Espaço Cultural Do Cajueiro é mesmo ele.

Jorge amava o espaço e era quem mais comemorava a chegada de novas pessoas para compartilhar esse lugar tão encantador e importante pra nós. Somos sempre essa necessidade de compartilhar, mas o meu pai realmente era muito aberto e sentia sede de mostrar aquele pedacinho de terra.

Ele sempre foi uma pessoa informal e provocadora, conhecia todo mundo dos arredores, os nativos pescadores, comerciantes. Sempre foi mergulhador e velejador, tinha um vínculo glorioso com o mar e com o enorme cajueiro, gostava de (Eric) Clapton, (Led) Zeppelin, Pink Floyd.

PorAqui: Por que é importante estruturar o cajueiro como um espaço cultural?

Esse espaço já existe há 30 anos e sempre foi um lugar de muito intercâmbio: de ciência, de música, de literatura, sobretudo de afeto. Velejadores, gastrônomos, guitarristas, botânicos, ceramistas, a arte como o estímulo manual de nossa expressão. Eu e minha irmã sempre levamos nossos amigos desde muito cedo, o que virou também ponto de encontro e descobertas.

À frente do Coletivo pensaquepensa, Tauã produziu diversos eventos na antiga Casa do Cachorro Preto. Foto: Ideias de Fim de Semana

Esse movimento já existia utopicamente na minha cabeça que sempre fui ligado com música, de transformar a casinha em um estúdio. Mas ele se intensificou em 2015 quando entrei n’A Casa do Cachorro Preto, um espaço cultural muito importante para Olinda, onde fui colaborador produzindo eventos e ganhando experiência.

Semanalmente começamos a ir para Catuama produzir músicas, pinturas, poemas, trocas! Juntou um grupo bom e desde aí pensamos que com a quantidade de gente que já visitou o espaço e a potência que ele tem pra se fazer imersões artísticas, vivências, retiros, oficinas, residências artísticas, podemos fazer dele um espaço fixo de atividades culturais.

PorAqui: O projeto de alguma forma abre diálogo com a comunidade do entorno? 

O projeto Omnirá Cerâmicas já tem oficina engatilhada na Casa do Cajueiro. Foto: Divulgação

Sim, inclusive Bia da Omnira Cerâmicas, desde que chegou na Casinha do Cajueiro teve a ideia de produzir uma oficina de cerâmica que pudesse levar pessoas da Região Metropolitana do Recife e também incluir moradores do entorno de Barra de Catuama.

É uma área que até tem uma pequena reserva, dá pra virar fonte de renda, agregar nos valores ali da pesca. Além disso, uma proposta de cineclube mensal ou algo parecido para começar a chegar junto e entendermos a dinâmica do espaço e vice-versa. Tem muito mais ideia a se explorar, inclusive que tenha mais vínculo com o mar e a pesca. E a poesia dentro disso.

Por enquanto vamos testando, tem surgido coisas bonitas por ali, não é a toa nossa guerrilha com essa vaquinha/crowdfunding pra poder reformar a casa e receber quem queira se abrir para a criação, o silêncio, as trocas como sejam.

PorAqui


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