O mau hábito de inventar dados sobre turismo

Uma característica comum a quase todos os alunos que cursam Turismo é uma certa ojeriza a números e dados estatísticos. Algumas pesquisas feitas com graduandos e graduados indicam que, no processo de escolha do curso, a ausência de disciplinas “com sangue” ou “com números” foi fator decisivo. Traumas com as disciplinas tradicionais do ensino fundamental e médio podem explicar. Porém, essa característica nos trouxe a uma realidade triste – temos um péssimo desempenho na coleta, análise, e disseminação de dados.

E isso vai se espalhando e contaminando o setor a um ponto que chega a ser embaraçoso.

Lembro-me de ouvir uma “autoridade” do turismo dizendo que, ao conversar com a imprensa sobre números dos grandes eventos de São Paulo, bastava dizer que “havia mais de 300 pessoas”. E complementava “a imprensa só quer um número para fazer manchete, e ninguém vai ficar conferindo”. Não foi ontem, nem ano passado, mas veio de alguém que eu respeitava.

De maneira geral, os dados do turismo são mentirosos. OPS. São estimativas. Quer dizer, ninguém está lá contando de fato, e então são feitas projeções. Em cima de outras projeções. Que foram também projetadas sobre dados que alguém “achava que”.

Há exceções, sem dúvida. Tome-se por exemplo o setor de transporte aéreo e de cruzeiros marítimos – muito difícil duvidar dos dados produzidos em função da quantidade de regulações necessárias. Agora, pense a hotelaria. Especialmente a pequena hotelaria – o hábito é esconder dados. Não revelar, por questões de medo da concorrência ou a sonegação de impostos. Pergunte aos diferentes Conventions Bureaus e secretarias de turismo o quanto é difícil conseguir os boletins de ocupação.

Mas o mais divertido foi ler um texto do jornalista Artur Rodrigues, da Folha de S. Paulo (07/02/2018) indicando que a prefeitura de São Paulo juntou um monte de dados e divulga resultados que são, realmente, duvidosos. Ele diz que “o número divulgado por Doria é equivalente às populações de Belo Horizonte (MG) e Porto Alegre (RS) juntas, cujas estimativas para 2017 feitas pelo IBGE são de 2,5 milhões e 1,5 milhões, respectivamente. A estimativa da prefeitura é como se um em cada três moradores da capital paulista tivesse ido para a folia”.

Cabe resgatar, também, matérias que duvidavam da quantidade de pessoas nas manifestações políticas de anos atrás. Por elas, soubemos que na Av. Paulista, por exemplo, se cada metro quadrado for ocupado por 4 pessoas, cabem no máximo 540 mil pessoas. (A avenida tem 2.700m de extensão por 50m de largura, incluindo pistas, calçadas e canteiros e SEM descontar arvores, postes, etc.). Se a gente “der um passinho para frente” e se apertar, vamos para 8 pessoas por metro quadrado e aí teremos pouquinho mais de 1 milhão de pessoas.

Portanto, tem certas mentiras com pernas curtíssimas. Outras, precisa de um pouco de bom senso para duvidar. Mas em todos os casos, precisamos mesmo é de profissionais sérios e dispostos a compartilhar dados e informações verdadeiras que nos levem a gerar dados confiáveis para que o setor seja mais respeitado.


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