Carnaval 2018 – [Fotos] O patrimônio de ritmo e adoração de Pernambuco

Tradição do maracatu, do afoxé, da ciranda, do coco e do samba resiste e se renova a cada Carnaval. Cultura une música e religiosidade

Por: Caroline Melo


Preparação do Maracatu Leão da Campina
Foto: Brenda Alcântara

A batida dos pés, os batuques, as danças, a religião: cada parte das tradições que vieram com os negros desde a época da escravidão ainda vive. E é durante o Carnaval que elas são mais abertamente exaltadas. Os grupos de maracatu, afoxé, ciranda, coco e até o samba, que dão ritmo a uma das festas mais características de Pernambuco, também relembram a adoração aos orixás e os instrumentos antigos que resistiram junto aos costumes de uma religião que atravessou séculos, vinda de várias partes da África, e que se incorporou fortemente à cultura nordestina.

“A nossa cultura negra significa não esquecer os nossos valores”, conta Mametu Nadja de Angola, rainha do Maracatu Nação Leão da Campina. “Os primeiros sons dos tambores, os primeiros couros colocados, aquelas danças com tanto sofrimento, tudo veio de um povo pisando descalço e que, mesmo assim, ainda tirava alegria da dança”, reflete Mametu, que é mãe do Abassá Kaiangu Kìa Ìtembu, onde defende com seus filhos e netos a tradição de terreiros angolanos.

O maracatu é negro, acima de quaisquer outras influências culturais, que são vislumbres de vários países africanos e elementos ameríndios e europeus incorporados em algum ponto entre os séculos 17 e 18.

Nos anos seguintes, a tradição virou ritmo, dança, adoração e patrimônio cultural imaterial de Pernambuco pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 2014, dentro de suas duas facetas: o maracatu Nação (ou de baque virado), com sua orquestra de percussão, e o maracatu rural (baque solto), com os instrumentos de sopro e os caboclos de lança incorporados, que contam também a história dos trabalhadores dos canaviais.

Olhando um maracatu seguir, é possível identificar as damas do paço, carregando as calungas, bonecas sem as quais a procissão não sai. Elas são a representação religiosa de cada nação e simbolizam uma entidade ou uma rainha morta. São vivas para o Candomblé e também dão vida a todo o resto do passeio.

“O maracatu e o terreiro são duas coisas inseparáveis”, afirma o mestre Shacon Viana, da Nação Porto Rico, grupo centenário cuja rainha, Mãe Elda, é yalorixá de Oxóssi e foi coroada dentro da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, um passo inigualável para a reafirmação da religião. “Sem o candomblé, o maracatu vira qualquer coisa.”

Mas a manifestação cultural vai além das veias religiosas. Tem um apelo de espetáculo. Toda a organização relembra a coroação dos Reis do Congo, seguindo as calungas, com uma corte de duques e duquesas, príncipes e princesas, embaixador e, embaixo do guarda-sol (o pálio) segurado pelo lacaio (escravo, como muitas nações chamam), vêm o Rei e a Rainha com sua espada e seu cetro.

A corte tem movimentos e danças características e é acompanhada por baianas e uma orquestra composta apenas de instrumentos de percussão: alfaias, caixas e tarôs, ganzás, gonguê e abês.

No Recife, a representação dos orixás e da religiosidade, além de sacralizar a festa de Carnaval, dedicada aos deuses, ainda reafirma a importância da tradição de matrizes africanas.

“O maracatu se torna, para o nosso povo, a representação de uma religião, da vida, da tradição e de tudo que é mais sagrado”, conta o mestre Shacon. “É também uma válvula de escape e uma forma de fazer com que nosso povo se descubra, se valorize e entenda seu legado”, aponta.

Essas matrizes aparecem tanto nos símbolos quanto no ritmo dos maracatus, nascidos nos antigos engenhos e fazendas que abrigavam os escravos; também está no coco, afoxé, na ciranda, no samba.

Dentro dos terreiros e grupos de música, o que importa vai muito além da dança. “A cultura não é só a coisa bonita em cima do palco, a gente faz todo um trabalho social em volta disso”, explica Mametu Najda.

Entre os filhos do seu abassá (o local onde as cerimônias são celebradas), ela investe em educação para os jovens, cuidado familiar para os adultos e conscientização para todos.

“Temos que fazer com que os jovens olhem a vida com um jeito diferente. Também temos que ter cuidado quando saímos na rua para nossas obrigações”, enumera a mãe, que reconhece as dificuldades de manter uma religião que nem sempre é respeitada em uma época violenta, ainda mais em periferias, onde as nações costumam se estabelecer. “Cada um faz um pouco para tornar a vida melhor. Cada grupo de afoxé, de coco, de maracatu”, afirma mametu Nadja, que reafirma a unidade entre as entidades que se dedicam às raízes africanas. Todos nós fazemos.”

Foto: Bruno Campos/Arquivo Folha

FOLHA PE


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *