Rua da Hora será a primeira via “completa” do Recife

Projeto prevê medidas que valorizem harmonia de pedestres e demais atores da mobilidade e deve sair do papel em 2018

Rua da Hora, na Zona Norte do Recife
Foto: Anderson Stevens/Folha de Pernambuco

A rua da Hora, no bairro do Espinheiro, na Zona Norte do Recife, foi a escolhida para ser a primeira da Cidade a aderir ao conceito de “rua completa”. Trata-se de um conjunto de intervenções urbanas que visam ao convívio harmônico entre os atores da mobilidade, sejam pedestres, ciclistas ou condutores de veículos motorizados. A iniciativa vem sendo disseminada em dez municípios do País pela WRI Brasil, instituição sem fins lucrativos que é parceira da Prefeitura do Recife (PCR) na concepção do projeto para a Capital.

A ideia é promover uma transformação na lógica de deslocamento, com mais espaço para a mobilidade a pé e menos para o transporte motorizado. Desse modo, uma “rua completa” ganha calçadas mais largas, proibição para trânsito em alta velocidade e espaços segregados para ciclistas e para o transporte público. A rua da Hora foi escolhida por já ter uma característica marcante: atrai milhares de pessoas todos os dias ao seu polo de comércio e serviços, um dos pilares do conceito que está sendo pensado para ela.

“É uma rua que tem atendimento de ônibus e onde existe uma grande circulação de pedestres pelo fato de haver uma área residencial significativa e um comércio interessante. Tudo isso potencializa o uso do espaço público pelas pessoas. Além disso, é uma rua que não é muito extensa. Então, teremos como testar o conceito de forma que abranja a rua como um todo”, explica Sideney Schreiner, diretor executivo de Planejamento e Mobilidade do Instituto da Cidade Pelópidas Silveira (ICPS), órgão ligado à PCR.

Os detalhes do que será feito na rua da Hora ainda estão sendo projetados. A etapa de discussões deve ser encerrada neste mês, e a implantação, em 2018. Ainda será necessário que o ICPS faça os projetos básico e executivo antes da licitação das obras. Mas, em geral, além da reconfiguração dos espaços para os modais de transporte, “ruas completas” também ganham mobiliários urbanos, como paraciclos e bancos de praça, e melhorias na acessibilidade, por meio de piso tátil e sinalização. Em alguns projetos, também são instalados “martelos urbanos”, estruturas que permitem prolongar a calçada nas esquinas para encurtar distâncias de travessias e impedir que veículos estacionem em áreas proibidas. Já as zonas de tráfego “calmo”, outras característica desse conceito de rua, costuma restringir a velocidade máxima de motos, carros, ônibus e caminhões para 30 km/h, como já acontece no Bairro do Recife.

“Trazer esse projeto para cá é o passo inicial de uma série de ações, tanto dentro do Plano de Mobilidade, que estamos elaborando, como dentro de alguns planos específicos”, afirma Schreiner. O Plano Municipal de Mobilidade levará intervenções urbanas, algumas delas também imaginadas para a rua da Hora, para toda a Cidade. A conclusão dele está prevista para dezembro deste ano.

Convite a caminhar

Com seus 986 metros de extensão, a rua da Hora liga dois corredores importantes: as avenidas João de Barros e Conselheiro Rosa e Silva, que, no passado, foram eixos das maxambombas, trens urbanos que serviram como meio de transporte no Recife entre o fim do século 19 e o início do século 20. Hoje, a via tem tráfego médio em suas três faixas de rolamento. A sombra das árvores convida à caminhada, ainda que as raízes quebrem algumas calçadas e sejam um desafio para as intervenções urbanas que forem planejadas.

O comerciante Luiz Feitosa, 76 anos, mora em Abreu e Lima e há 46 sai para trabalhar em seu ponto comercial situado na esquina da rua da Hora com a rua Santo Elias. Diz que o lugar é certeza de movimento para sua atividade e vê qualquer modificação na via com desconfiança. “Já vieram algumas vezes, mediram a rua, mas não sei se era algo sobre esse projeto. Não sei exatamente o que vão fazer, contanto que não mexam no movimento. Hoje já é bem frequentado. Passa gente toda hora. É por isso que estou aqui”, afirma.

Autor do livro “Calçada: o primeiro degrau da cidadania urbana”, o arquiteto e consultor Francisco Cunha praticamente nasceu no Espinheiro, trabalha lá e acompanha a dinâmica do bairro há mais de 50 anos. Ele diz que a rua da Hora tem itens que favorecem a “caminhabilidade”, conceito que dissemina a necessidade de calçadas não só sem buracos ou obstáculos, mas também iluminadas, sinalizadas e atrativas. “Se você põe muros altos, com guaritas, luzes e guardas, vira uma penitenciária. Você aumenta a insegurança de quem está dentro e de quem passa fora. Na rua da Hora, não, você tem fachadas que permitem a permeabilidade do olhar. São fachadas ativas. O fato de ficar numa área residencial e comercial é importante para o fluxo dela, quando se imagina que um bairro ideal, que equilibra o uso do solo para comércio, serviço e moradia, tende a ter movimento durante as 24 horas do dia”, explica.

Cunha ainda afirma que a experiência que está sendo pensada para a rua da Hora pode ser uma oportunidade de a gestão pública fazer intervenções pensando em todos os atores da mobilidade urbana, e não apenas nos meios motorizados. “O trânsito precisa deixar de ser sinônimo de veículo motorizado no Brasil. Dois terços da população usam a calçada e estão numa situação dramática no País inteiro. Não é uma questão só do Recife. Então, é preciso que haja uma inversão de prioridades”, defende.

Por: Luiz Filipe Freire, da Folha de Pernambuco


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