Restauro de antigo casarão tenta dar nova vida à Boa Vista

Sem qualquer investimento público, proprietário banca sozinho o restauro milionário do histórico imóvel

Entre as tradicionais ruelas do bairro da Boa Vista, uma tentativa de resgate e preservação da história recifense. O antigo casarão Villa Ritinha, fundado em 1835, está em processo de recuperação após anos e anos em completa degradação. Localizado na Rua da Soledade, o imóvel é um incrível exemplar da arquitetura portuguesa do século XX e, pelas mãos do alemão Klaus Meyer, tenta dar nova vida a uma região marcada pelo desprezo público e pela violência.

Originalmente, o Villa Ritinha pertencia a um barão de açúcar português, respeitado maçom que utilizava o imóvel para reuniões da sociedade. O palácio compreendia todo o quarteirão (hoje, dividido em cinco imóveis) e foi a primeira residência privada a receber luz elétrica na capital pernambucana, segundo informa Klaus. Em 1918, passou por uma modificação e mais tarde transformou-se no primeiro hotel de luxo do Recife. Ao longo dos anos, o imóvel se tornou uma pensão e posteriormente um bordel. “A funcionária faleceu e a casa ficou só, abandonada. Depois a família proprietária decidiu vender e eu descobri na internet”, afirma Meyer.

Sem qualquer investimento público, o proprietário banca sozinho o total restauro do casarão. “Já gastei uma fortuna: eu comprava facilmente duas coberturas ou mais, em Boa Viagem, com o dinheiro gasto na Villa Ritinha. E ainda falta cerca de R$ 2 milhões para o completo restauro”. Os altos valores são compreensíveis pois fachadas, obras de artes e até mesmo o salão de espelhos estão sendo reproduzidos fielmente, como no projeto original da mansão. “O cupim estava a comer tudo. O que não foi estragado, roubaram para vender. Inclusive uma banheira de cobre, vinda da Inglaterra, foi vendido a preço de sucata”.

Hoje, o local se tornou a Casa Cultural Villa Ritinha, um café-bistrô destinado à arte em suas várias expressões: exposições, apresentações musicais, concertos e cursos. Klaus tem o objetivo de adquirir as casas ao lado para fazer a ampliação do local, tal qual ele era na sua fundação. “Estudei arte e design e me parte o coração quando passo por aqui e vejo essas casas antigas, lindíssimas, se estragando completamente de cima para baixo. Ninguém dá valor. As pessoas não notam, deixam desaparecer e depois toda a gente chora. A Boa Vista para mim é uma área fantástica, de construções lindas”, declara o alemão.

Embed:

Meyer lembra que este tipo de descaso público não é exclusividade brasileira e lembra que o Harlem, em Nova Iorque, era tão desprezado ou pior quanto a Boa Vista, mas depois de vontade política e investimentos se transformou num reduto de cultura e arte na cidade norte-americana.

O LeiaJá entrou em contato com a Prefeitura do Recife, através da Secretaria de Planejamento Urbano. Em nota, o órgão informou que o “desafio maior da gestão pública é oferecer alternativas que gerem o incentivo necessário aos proprietários de imóveis que estejam inseridos em zonas especiais”. De acordo com a Secretaria, a responsabilidade da preservação do imóvel “é sempre do proprietário, que pode ser privado ou público”.

O órgão ainda citou as câmaras técnicas do Conselho da Cidade, “instrumentos urbanísticos específicos que beneficiarão as zonas de preservação da cidade: Outorga Onerosa, Transferência do Direito de Construir, IPTU Progressivo e Parcelamento, Edificação e Utilização Compulsória”. Tais instrumentos fazem parte da revisão do Plano Diretor.

Enquanto muito se promete, pouco se vê na prática e a cidade perece. “Recife foi famosa no mundo inteiro como a Veneza da América Latina e não por menos. As imagens do início da fotografia mostram: Recife era simplesmente fantástica. Mas hoje está muito, muito mal tratada. Hoje, Recife para mim é como a face de uma menina muito bonita que quando abre a boca faltam os dentes”, lamenta Klaus.

 – por Alexandre Cunha


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *