Inação e espera ativa: uma reflexão importante para o atual momento

Por Alvaro Camargo, Professor convidado dos cursos de MBA da Fundação Getúlio Vargas

Não é novidade para ninguém o tamanho da crise pela qual o Brasil passa neste momento. É possível perceber que as empresas com capacidade de investimento puseram o pé no freio em seus projetos de expansão e de lançamento de novos produtos. A ordem do dia é simplesmente cortar custos e não fazer nada até que o cenário político e econômico se torne mais favorável. Essa situação traz consigo uma oportunidade interessante para reflexão. Será que a inação é o melhor curso a ser seguido? Seguramente que não. Embora não seja o momento adequado para se endividar, as empresas podem fazer aquilo que se chama de espera ativa. Mas, qual é a diferença entre espera ativa e inação?
A palavra “espera” sugere não fazer nada e simplesmente esperar o tempo passar. Mas esse entendimento é falso quando se fala de espera ativa. O fato da economia estar em ritmo lento, não significa que vai ficar eternamente assim. Em algum momento a economia vai reagir. E quem estiver preparando, vai sair na frente, vai ganhar mercado e vai colher bons resultados. A espera ativa é exatamente isso: enquanto espera, a empresa desenvolve um conjunto de projetos e atividades destinadas a melhorar seu desempenho quando a economia retornar.  Tomei conhecimento do conceito de espera ativa há alguns anos quando li o artigoStrategy as Active Waiting do Prof. Donald Sull do MIT. As recomendações feitas por esse pesquisador são:
Crises são ameaçadoras, mas também trazem consigo oportunidades excepcionais: algumas oportunidades podem ser muito boas. Isso é corroborado pela recente fala do empresário Abílio Diniz de que o Brasil está à venda. 
Ter prioridades claras, mas manter a visão aberta: ninguém consegue prever o futuro com exatidão. Embora a empresa deva ter clareza de suas prioridades, é importante estar aberto às oportunidades excepcionais que podem surgir em momento de crise. Esse tipo de oportunidade costuma ser rara e não dura muito. As janelas desse tipo de oportunidade rapidamente se fecham. Então, quando essas oportunidades aparecem, a empresa deve estar preparada para saber se deve agir para aproveitar a oportunidade. E se entender que deve agir, deve ter condições de fazer isso. Isso nos leva à recomendação seguinte. 
Manter reservas: um nível inadequado de liquidez num momento de crise é sempre complicado. Por outro lado, não ter reservas suficientes para aproveitar oportunidades excepcionais que surgem em momentos de crise é péssimo. Oportunidades excepcionais raramente ocorrem mais de uma vez em um curto espaço de tempo. 
Sondar as tendências futuras: monitorar o ambiente no qual a empresa opera é essencial. Buscar entender porque certas coisas funcionam e outras não, conectar fatos que aparentemente não estão relacionados pode ser importante para enxergar oportunidades que vão garantir o futuro da empresa. 
Melhorar a eficiência operacional: a melhoria de produtividade e qualidade é absolutamente necessária para manter a condição competitiva. Momentos de crise, no qual a demanda diminui, configuram excelentes oportunidades para repensar os processos, obter lições aprendidas e melhorar a eficiência operacional. Momento de crise também são momentos adequados para capacitar os colaboradores chave da organização. 
Focar os esforços em um esforço principal quando for o caso: oportunidades vêm e vão o tempo todo. Mas oportunidades excepcionais não aparecem todo dia. Crises costumam ser momentos adequados para o surgimento desse tipo de oportunidade. Por isso, quando a empresa encontra uma oportunidade que realmente interessa e decide aproveitá-la, deve declarar em alto e bom tom que o foco será o aproveitamento da oportunidade. Se a oportunidade for realmente excepcional, a empresa deve considerar desfazer-se de ativos cuja rentabilidade não seja excepcional de forma a liberar recursos para aproveitar essa oportunidade. Lembre-se: se sua empresa não lutar para aproveitar uma oportunidade excepcional, seu concorrente o fará. 
Vamos a um exemplo de uma empresa bem conhecida dos brasileiros que, aparentemente, está num processo de espera ativa: a TAM. Não é novidade que o setor aéreo brasileiro passa por dificuldades. A TAM, segundo declaração da Presidente da empresa, Claudia Sender, está, como qualquer empresa aérea, buscando melhorar sua eficiência operacional e fidelizar o cliente. Uma das ações de rotina da empresa é constantemente revisar a malha de forma a não operar voos deficitários. Mas a empresa não está se limitando a isso. Internamente a TAM vem desenvolvendo o projeto de um centro de conexão (Hub) do Nordeste. A ideia é ter na região um hub que concentre voos vindos de outros países da América do Sul para conexão com voos destinados a Europa. O hubtambém deverá concentrar voos de turistas brasileiros e de outros países que vão aproveitar o potencial turístico do Nordeste, que é enorme. Ao mesmo tempo a empresa mantém, segundo Claudia Sender, conversas com a Embraer, visando a compra de aeronaves regionais, assim que as condições do mercado brasileiro permitirem uma expansão da aviação regional. Como se vê, melhorar a eficiência operacional é importante. Mas a espera ativa envolve também trabalhar na preparação de projetos que vão fazer muita diferença na hora que a economia voltar a crescer.

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