
RIO - Chova ou faça sol, o administrador de empresas Cláudio d’Ávila desce, diariamente, de seu apartamento na Avenida Atlântica para começar a percorrer, a partir das 5h30m, toda a extensão do belo canteiro central da mais famosa praia brasileira, a de Copacabana. Do Leme ao Posto 6, ele supervisiona de perto a equipe de profissionais variados que contratou para cuidar dos 15 mil metros quadrados do canteiro. Cláudio faz parte de um time de benfeitores que, apaixonados pelo Rio, assumiu a tarefa de adotar cartões-postais da cidade, custeando com o próprio bolso sua manutenção.
No início, foram praças e jardins, mas a adoção se ampliou para os pontos turísticos da cidade, comemora a Fundação de Parques e Jardins (FPJ), responsável pela efetivação dos contratos. Os empresários Lauro Wöllner e Paulo Calarge, por exemplo, donos de uma grife de roupas masculinas, escolheram cuidar de uma área especial: a Vista Chinesa. A parceria com a prefeitura inclui um investimento inicial de R$ 40 mil para a reforma do pagode, a criação de um bicicletário, a recuperação da vegetação no entorno e a instalação de uma foto panorâmica, com a indicação dos principais itens da paisagem que os turistas veem do mirante. A adoção está sendo finalizada e Wöllner, frequentador da Vista Chinesa, é só alegria. Para o futuro, ele planeja estender a adoção ao entorno do monumento:
— Eu faço parte do movimento Rio, Eu Amo, Eu Cuido. É muito prazeroso poder fazer algo pela cidade. Todos nós podemos ajudar um pouco — diz Wöllner, que é atleta e frequentador assíduo da área da lazer.
Para o administrador de empresas Cláudio d’Ávila, a vontade de adotar um cartão-postal surgiu numa manhã, em 2008, quando ele percebeu, da janela de casa, que três algodoeiros do canteiro central, no trecho do Leme, tinham sido cortados. Ele descobriu que o responsável era um morador recém-chegado a esse trecho da praia, incomodado com as árvores, que encobriam parte da vista.
— Fiquei muito indignado com a atitude dessa pessoa, que queria a vista da praia sem obstáculos — conta Cláudio, que acabou telefonando para a Fundação de Parques e Jardins, interessado em adotar outras árvores desse ponto do canteiro.
Administrador: "O canteiro é o meu quarto filho"
Inicialmente, foram 13 abricós, depois 15, até que, em 2009, Cláudio incluiu a calçada, de 1.080 metros quadrados. No final de 2010, estendeu a adoção aos 15 canteiros da Avenida Atlântica. Para manter a beleza do calçadão, um bem tombado, o administrador de empresas contratou uma equipe de profissionais, que inclui calceteiros, biólogo, zootécnico, paisagista e jardineiros. Cuidadoso, ele acompanha de perto o trabalho do time.
— É uma grande alegria. Como tenho três filhos, digo que o canteiro é o meu quarto filho. Hoje, me orgulho de ver que ele já não está mais infestado de pombos, está limpo, conservado e abriga pássaros e borboletas — conta, orgulhoso, preferindo não revelar quando gasta com a manutenção do "filho". — Posso dizer que é mais de um real.
Outro cartão-postal carioca prestes a ser adotado é o Parque Garota de Ipanema, no Arpoador. O padrinho será o empresário Mário de Andrade Neto, nascido em Manaus e dono do famoso quiosque Palaphita Kitch, na Lagoa. Vivendo no Rio há 30 anos, ele conta que chegou a hora de agradecer à cidade pelo que conquistou profissionalmente. Mário já procurou a prefeitura para, em parceria com o grupo Favela Surf Club (que oferece aulas de surfe no Arpoador a jovens de baixa renda), cuidar do parque.
A ideia do empresário é instalar na área do parque um bistrô ou um café e uma sede para o surfe, aberta ao público. Seria, segundo ele, um espaço de lazer voltado às famílias.
— O espaço, tão conhecido, está ocioso. No carnaval, virou abrigo de mendigos. O parque não merece isso. Nossa proposta é cuidar das instalações e oferecer algo que atraia frequentadores — explica ele.
O Favela Surf Club é uma instituição patrocinada pela Nike. Essa marca esportiva, aliás, foi responsável pela instalação de refletores na Praia do Arpoador, o que possibilitou a prática do surfe noturno nesse trecho da orla.
— Só tenho a agradecer à cidade pelo que conquistei. Cuidar do parque seria uma forma de fazer isso — diz Mário.
Bem antes de a adoção de cartões-postais se tornar uma tendência, o designer de joias Antonio Bernardo decidiu, há cerca de uma década, tomar para si a responsabilidade de cuidar da manutenção do belo orquidário do Jardim Botânico. Procurou a direção do parque e acertou os trâmites legais. Cada contrato de adoção tem dois ou três anos de duração. O designer, cujo atelier está instalado no bairro, tem renovado o compromisso ininterruptamente.
Antonio conta que o desejo de cuidar desse patrimônio carioca surgiu quando leu num jornal que o Jardim Botânico estava abrindo parceiras público-privadas.
— Sempre frequentei o parque, principalmente quando minhas filhas eram pequenas, e chamava a minha atenção o fato de a bela estufa de orquídeas estar sempre com as portas fechadas. Apaixonado que sou por orquídeas, quando vi a nota no jornal quis fazer algo, devolver um pouco do que a gente recebe à comunidade — diz o mantenedor do orquidário, onde financia duas exposições anuais.
O designer prefere não revelar o custo da manutenção do espaço.
Eike Batista já investiu R$ 19,5 milhões na Lagoa
Não chega a ser uma adoção nos moldes oferecidos pela prefeitura, mas o empresário Eike Batista financia, desde setembro de 2008 o projeto Lagoa Limpa, idealizado por seu Grupo EBX. O objetivo é a recuperação ambiental da Lagoa Rodrigo de Freitas. Com o projeto, que tem parceria com o estado e a prefeitura, o grupo já comprometeu R$ 19,5 milhões.
— Não deixa de ser uma adoção, já que a empresa cuida da saúda da Lagoa — afirma Eliane Soares de Lima, frequentadora da Lagoa.
Já são 132 as áreas adotadas
Tudo começou há 20 anos, com a adoção de pequenas áreas públicas por meio de um programa criado pela prefeitura. O diretor de Planejamento de Projetos da FPJ, Sydnei Menezes, diz que hoje 132 pontos da cidade têm padrinhos, incluindo 34 praças, 32 canteiros, 33 áreas verdes, seis monumentos e seis parques, entre outros. Ele comemora o fato de agora os cartões-postais também começarem a entrar na lista.
Em geral, os convênios de adoção duram dois anos. Em muitos casos, quando o acordo não é renovado, o espaço acaba com sua manutenção prejudicada. Segundo Sydnei, o adotante se encarrega de fazer a manutenção paisagística, com a assessoria da prefeitura.
— São convênios muito interessantes, que não envolvem repasses de recursos. Começamos com praças e jardins, depois incluímos até árvores e jardineiras, para que pessoas físicas também se interessassem em participar, pois basicamente essas adoções eram feitas por pessoas jurídicas — explica ele, acrescentando que o processo de adoção é bem simples.
O Globo



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