Uma semana antes de sua viagem ao Senegal, a sala de Ibon Moleres, de 33 anos, estava tomada não por malas ou mapas, mas por um monte de latas de comida, livros e roupas infantis. A segunda bagagem foi cheia de ajuda humanitária. Ele escolheu o turismo solidário como opção de férias.
O conceito vai além do ecoturismo, outra forma de unir turismo à responsabilidade social: o objetivo é conhecer um país visitando os principais pontos de interesse, e também o trabalho desenvolvido por organizações não-governamentais. Ibon foi ao Senegal com um grupo de 12 pessoas, graças à ONG espanhola Campamentos Solidarios. O projeto Afrique Aventure, mantido pela entidade, tem como objetivo a criação de uma rede de acampamentos que cubram as zonas mais necessitadas do país.
" Há dois anos uma amiga da minha irmã foi ao Senegal com a ONG e ficou apaixonada pela experiência. Agora é minha vez de ir ", diz.
Como os visitantes podiam levar duas malas sem pagar taxas extras, a Campamentos Solidarios pediu que uma delas fosse de doações para crianças senegalesas.
" Pedi ajuda à empresa onde trabalho e a amigos e consegui roupas e alimentos ", conta o analista de sistemas espanhol.
O camping da região de Badian mantido pela ONG, para onde foi Moleres, tem e um alojamento de turismo de aventura em Senegal Oriental, utilizando os princípios da arquitetura bioclimática e do desenvolvimento sustentável. O trabalho dos turistas visa ajudar a melhorar a saúde no povoado de Bassari, e as condições de um centro educacional na comunidade rural de Tomboronkoto.
Pesquisas de organizações internacionais de intercâmbio mostram que o turismo solidário vem crescendo principalmente entre os jovens.
"As vendas para este tipo de viagem foram tímidas no começo, mas hoje registramos um crescimento de mais de 300% desde o lançamento do programa, há dois anos. Este ano, lançamos o mesmo programa para o Peru e para a Índia ", explica Maria José Buarque de Paiva, supervisora regional da CI, central de intercâmbios que também oferece pacotes de trabalho solidário no Rio de Janeiro.
Em fevereiro, a jornalista Thabata da Costa foi à África do Sul pela CI.
A ideia era ficar um mês, mas ela se apaixonou pelo projeto: cuidar de macacos no Riverside Wildlife Rehabilitation Centre (www.monkeyrehabilitation.com), na cidade de Letsitele, em Limpopo. Depois de três meses, voltou com saudades.
"Se era para ir, queria fazer direito, nada de luxo. Não me interessaria fazer uma viagem para a África como se fosse para a Disney, só para fingir que estava fazendo alguma coisa pelo mundo", conta.
Thabata também conheceu um grupo de crianças vítimas de abusos que se encontram sob a tutela do Estado, cuja autoestima o projeto ajuda a desenvolver por meio do cuidado com os animais:
" Fiz amizade com uma menina, Page, de apenas 12 anos, que me escreve cartas constantemente".
Jordi Gascón, doutor em Antropologia Social pela Universidade de Barcelona e membro ativo da Acció per un Turisme Responsable, afirma que o turismo solidário nasceu das atividades de ONGs como a dele.
"É direcionada a viagens que asseguram um certo nível de sustentabilidade, gerando benefícios para a população local. Além de permitir que o turista conheça a realidade sociopolítica da região", explica Gascón.
Os destinos mais buscados ainda estão na África, como Marrocos e Senegal, ou na América do Sul.
O Brasil também entrou no roteiro, pelo Projeto Bagagem, que começou a oferecer viagens no país a partir de 2004.
"A porcentagem de turistas que buscam esse tipo de turismo ainda é pequena, mas a cada ano são mais os interessados", conta Rebeca Gernán, do Alter Nativas, ONG de Navarra, na Espanha, que faz parte da rede de instituições que apoiam o Projeto Bagagem.
SERVIÇO
A CI também oferece pacotes de turismo solidário à Índia, nos estados de Rajasthan, Himachal Pradesh e Goa, onde o voluntário pode participar de projetos sociais e ambientais que envolvem o cuidado com os animais e o meio ambiente.
Tem duração de duas a 12 semanas, com possibilidade de extensão. O trabalho nos projetos envolve dedicação diária do voluntário e as atividades duram de cinco a sete dias por semana, entre quatro e oito horas por dia. Para participar é necessário ter idade mínima de 18 anos e conhecimento de inglês em nível intermediário.
O Projeto Bagagem (www.projetobagagem.org), da ONG Alter Nativas, oferece pacotes na Amazônia Ribeirinha (Santarém, no Pará); Gurupá, no Pará; nos Lençóis Maranhenses (São Luis, MA); em Nova Olinda, no Ceará; Santa Rosa de Lima, em Santa Catarina; e em Paraty (RJ). A Amazônia Ribeirinha, primeiro roteiro do projeto, tem o objetivo de levar um pequeno grupo de turistas a um pedaço da Amazônia paraense a partir da cidade de Santarém, navegando pelos rios Tapajós e Arapiuns e visitando algumas de suas comunidades mais organizadas.
Outra opção no Brasil é a Rede Tucum (www.tucum.org), que inclui destinos de turismo comunitário na costa cearense. Uma opção é a Prainha do Canto Verde, uma das primeiras comunidades que ousou ensaiar este tipo de turismo no mundo; ou o assentamento Coqueirinho, comunidade que desenvolve experiências com hortas orgânicas e sistemas agroflorestais.
Fonte: Da Agência O Globo - 06/01/11