António Mexia fala sobre os desafios da EDP como se tivesse acabado de assumir as funções de presidente da empresa. Em entrevista, no dia em que recebeu o prémio ‘CEO em destaque', atribuído pelos leitores do site www.economico.pt, afirma que a liderança pela diferença continua a ser a narrativa que conduz a sua acção e a estratégia da companhia. Mexia não esconde a sua irritação com os que classifica de ‘treinadores de bancada' e revela que, a partir de 2012, a EDP vai libertar uma quantidade enorme de fundos. Para distribuir pelos accionistas ou para crescer, logo se verá.
Qual é o principal desafio da EDP?
Em 2006, a questão esssencial na EDP era a definição de uma visão que conciliasse ambição e pragmatismo, com a determinação de áreas onde fossemos diferenciadores e onde conseguissemos ter uma posição de liderança. Passámos a ter uma posição de liderança na energia hídrica, cujos projectos estavam todos na gaveta, e a partir de uma posição embrionária, criamos a terceira maior empresa renovável em três anos. São duas áreas onde fomos e somos absolutamente distintivos. Tal como fomos distintivos, por exemplo, nos investimentos no Brasil. Criámos a diferença, mais, definimos o objectivo da liderança pela diferença, o que nos transformou. Deixamos de pretender ser uma companhia igual às outras, mas pequenina e com economias de escala. Esse foi o objectivo principal e consegui-mo-lo. Criámos muitas opções, mantivemos a disciplina na execução dessas opções e, é importante sublinhá-lo, a partir de 2012, a companhia será muito diferente em termos de perfil de libertação de cash.
Porquê?
Nos últimos anos, fizemos um grande esforço de investimento, nas áreas das renováveis, no vento e na água, que só darão frutos a partir dessa altura, nomeadamente nas barragens. Houve alguns anos em que a EDP investiu mais de três mil milhões, acima do seu Ebitda e, neste momento, o Ebitda já está acima do nível de investimento anual. Ora, esta diferença permitirá libertar fundos e criar um ‘free cash flow' enorme.
A EDP beneficiou da aposta dos Governos PS na energia renovável?
O facto da política energética ter sido ambiciosa na área das renováveis, com a criação de toda a componente de desenvolvimento eólico e do cluster industrial e também no apoio a um projecto hídrico global... Quando chegámos, a primeira decisão foi a relativa à barragem do Baixo Sabor, que estava parada há anos em Bruxelas. Conseguimos dar a volta a esse problema e isso permitiu credibilizar um processo que, hoje, tem mais de onze frentes de obras em barragens. Só a EDP tem investimentos de mais de três mil milhões de euros em três mil megawatts, dos quais mil novos, e a capacidade de criação de trinta mil empregos, com impacto também na balança de pagamentos. Agora, isto só foi possível porque a EDP estava pronto a responder. As vezes, a solução está na gaveta e a gaveta está fechada.
As acções da EDP estão hoje cotadas a ... Reflectem o valor da empresa?
Acho que essa é uma pergunta que fazem a todos os presidentes de todas as companhias do mundo... Hoje, é óbvio que o mercado de acções não traduz a percepção do valor das companhias. Mas isso é verdade, especialmente quando há crise, porque os investidores são mais avessos ao risco. As companhais do Sul da Europa têm sofrido algo mais do que as outras e, apesar da EDP ter cerca de 55% da sua actividade fora de Portugal, como tem a base no Sul da Europa, reflecte uma percepção adicional do mercado de algum desconforto enquanto não houver uma consolidação das políticas europeias. Isto é verdade para todas as companhias e não só para a EDP.
A queda do rating da República Portuguesa e o consequente agravamento do custo da dívida soberana poderá afectar a capacidade de financiamento da EDP?
Uma das coisas que fizemos bem nos últimos anos, e isso deve-se ao Nuno Alves [CFO] e à sua equipa, foi a política de financiamento, feita sempre com 24 meses de antecedência. Em momentos exigentes de mercado, como foi o final de 2008, perguntavam-nos porque é que não esperávamos. Mesmo quando fizemos o IPO da EDP Renováveis. Não o fizemos e isso permitiu-nos olhar para o futuro com tranquilidade, mas como é óbvio, a situação financeira internacional afecta toda a gente, em primeiro lugar o sector financeiro e depois as empresas. Agora, não fingimos que não se passa nada e, por isso, decidimos cortar o investimento em cerca de 600 milhões de euros por ano no plano até 2012. Se o mercado não está pronto para reconhecer um crescimento tão forte, se calhar não é necessário crescer tão depressa.
O nível de endividamento da EDP contribuiu para esta percepção?
Acho extraordinário... em Portugal, as pessoas têm uma enorme dificuldade em analisar o numerador e o denominador ao mesmo tempo. As pessoas vêm números absolutos e não vêm rácios, o que, aliás, tem a ver com a ausência de escala dos números em Portugal e, às vezes, com falta de ambição. Basta ver que, em Portugal, há apenas duas empresas não financeiras com rating A e uma delas é a EDP. Só gostaria de dizer que devem avaliar os números com olhos de ver. Depois de um programa de investimento de mais de doze mil milhões de euros, que permitiu à companhia ter um crescimento ímpar, os rácios melhoraram de forma significativa nos últimos quatro anos. Depois, não se pode ter uma visão de curto prazo, só de 2010 ou 2011... Temos de olhar para os rácios financeiros de forma dinâmica e, felizmente, o mercado avalia-os assim, ao contrário de alguns treinadores de bancada.
A EDP não precisa, portanto, de um aumento de capital para financiar a sua expansão?
Mesmo em momentos como Novembro de 2008, quando apresentamos os objectivos para 2012, reafirmamos que não queriamos alterar a política de crescimento de dividendos, que permite que depois destes investimentos elevados e de crescimento, os accionista que recebiam 10 centimos por acção, venham a receber 20 cêntimos por acção. Portanto, desde que as assembleias gerais o aprovem, porque os accionistas são soberanos, vamos duplicar o dividendo com base nos números de 2102. Mantemos esses objectivos e dissemo-lo outra vez aos investidores.
Esse ‘free cash-flow' vai ser canalizado, sobretudo, para remunerar os accionistas a partir de 2012?
Uma coisa que distingue a EDP é a alocação de capital, o seu ‘asset alocation', isto é, o facto de apostarmos em vento e água, áreas com maior nível de rentabilidade dentro do sector energético. Por exemplo, a única aquisição que fizemos em 2009 foi justamento de parte de uma empresa em Espanha, da Gas Natural, que opera numa área regulada... isto mostra ambição, mas também pragmatismo. A companhia vai gerar fundos, mas veremos o que fará sentido fazer. Poderá ser um reforço da distribuição de dividendos ou novas oportunidades de crescimento não orgânico. Quaisquer que sejam as opções, têm de manter o objectivo e a visão definida quando chegámos.
A crise já chegou à actividade operacional da EDP, nomeadamente um aumento da dívida dos clientes?
Não. Não houve um aumento dos níveis de incumprimento face ao ano passado. O peso dos devedores não aumentou nos últimos dois anos, mas isso também revela o que é a maior eficácia na relação da EDP com os clientes. Focámos três pilares estratégicos: em primeiro lugar, o crescimento, e continuamos a crescer acima da média do sector; um menor risco operacional, e somos das empresas com menor risco a nível mundial, desde logo porque 85% do nosso Ebitda é gerado a partir de actividades reguladas ou contratado a longo prazo; finalmente, a eficiência, que tem sido pouco valorizado, mas que mostra a nossa capacidade, por exemplo, o ‘netopex' sobre a margem bruta tem o melhor rácio da Península Ibércia, que passou de 38% para 30% em quatro anos.
As autoridades espanholas decidiram recentemente proceder a um corte das tarifas na área das energias renováveis. Esta decisão afectará a EDP, sobretudo se for seguida no resto da Europa?
O debate na Europa em termos de política energética assenta em três áreas: a eficiência energética, o aumento do peso da área das renováveis e a respectiva diminuição da emissões e o investimento em redes e infraestrutura necessária para transportar a energia renovável. São aspectos consensuais, portanto, se esses objectivos não foram postos em causa num momento de crise, pelo contrário, estou perfeitamente tranquilo sobre o futuro e sobre a aposta nas energias renováveis, sobretudo na água e no vento. Sobre a mudança recente em Espanha, tem um impacto muito menor do que se esperava, e que afectou sobretudo a energia solar e não a eólica. Em Portugal, já temos das tarifas mais baixas da Europa na energia eólica. O sistema em Portugal é estável, mas é muito competitivo.
Já é conhecido o ‘deve-e-haver' da energia eólica?
Durante muito tempo, não houve o ‘deve-e-haver' das energias tradicionais, o ‘deve-e-haver' dos custos das emissões. É totalmente irracional e preguiçoso não perceber que a energia eólica tem um contributo indiscutivel pra o País a todos os níveis, mas também na criação de emprego e no desenvolvimento de competências. Hoje, exportamos competências na área do vento e hídrico, quando noutras áreas de energia não temos competências nenhumas. Finalmente, há outro ponto que as pessoas não têm em conta: a responsabilidade intergeracional. Hoje, vive-se uma espécie de irresponsabilidade intergeracional, porque as dívidas de hoje são os impostos de amanhã, as autoestradas sem portagem de hoje serão pagas pelas próximas gerações em impostos. Nas renováveis, a situação é precisamente a inversa. Estamos a assumir hoje a remuneração de uma externalidade e, no futuro, vamos ter um activo amortizado que, ainda por cima, poderá ser mais competitivo do que qualquer outro, mesmo uma central térmica. Comparar preços como alguns o fazem é, pura e simplesmente, preguiçoso ou demagógico.
Falou na criação de competências em Portugal, mas a EDP acabou por fazer uma grande encomenda de turbinas a uma empresa estrangeira e não a empresas portuguesas que integram o cluster industrial. Porquê?
Se há um cluster eólico em Portugal, foi porque a EDP liderou um consórcio, com outras empresas, que ganhou um concurso, cumprindo os objectivos e até ultrapassando, desenvolvendo e construindo um cojunto fabril moderno em Viana do Castelo. Sejamos claros sobre isso. Agora, a EDP está presente em onze países, de geografias tão distantes como de Houston até Bucareste. A EDP não pode estar dependente de apenas um fornecedor ou de um único tipo de turbinas. Finalmente, a outra razão é a competividade de preço, isto é o ‘value for money'.
As críticas são injustas?
Não houve nenhuma crítica...
Pública...
Não houve nenhuma crítica. A EDP é o maior investidor na economia portuguesa, é um dos maiores financiadores de cultura, é a empresa que está a levar empresas portuguesas para os mercados onde está. O caso das barragens é sintomático. Há 15 dias, fizemos uma apresentação em Torres de Moncorvo para empresas e fornecedores locais, um processo liderado pela Fundação EDP. Hoje, desafio qualquer empresa ou entidade portuguesa ou algumas pessoas que falam de tudo menos das empresas onde trabalham a mostrar o papel que têm na economia portuguesa. A EDP é a empresa que mais oportunidades cria na economia portuguesa.
O cluster eólico português é competitivo?
É, claro. É competivivo e competente, dentro das categorias de turbinas que faz e nos segmentos onde está. A Enercom é dos grandes fornecedores mundiais e tem à sua volta um conjunto de empresas portuguesas muito relevante. Parte das turbinas que adjudicamos agora para o Brasil vem de Viana do Castelo.
‘A PRESENÇA DO ESTADO NO CAPITAL DA EDP É IMPORTANTE'
É importante para a EDP o Estado ser um accionista com direitos especiais?
Em primeiro lugar, é importante dizer que o Estado não tem uma ‘golden share' na EDP. O que o Estado tem é o direito especial de votar nas assembleias-gerais com a totalidade do capital não privatizado, isto é, 20%. Todas as outras acções, que foram alvo de privatização, mesmo as que estão nas mãos de entidades públicas, têm um limite de voto nos 5%. A situação é muito clara e é muito diferente da ‘golden-share'...
É uma blindagem da empresa, como nas ‘golden shares'?
É um tratamento diferenciado. A questão é saber se há ausência de transparência ou de informação ao mercado. Não há. Podem não gostar destas regras, mas todos as conhecem. Como, aliás, no caso das ‘golden share'. No caso da EDP, é um poder de voto.
No caso da EDP, faz sentido manter esta discriminação?
O caminho para o fim desses direitos especiais é claro e inexorável, embora muitos dos grandes países a nível europeu tivessem mantido a defesa desses interesses empresariais, até porque esses governos não procederam à privatização dessas empresas ou fizeram-no de forma mais limitado. Em França, na Alemanha, em Espanha... a Endesa, por exemplo, foi um caso sintomático e evidente de uma intervenção política gigante num processo que era suposto o mercado ter resolvido. Não foi o mercado a resolver aquele caso.
Portanto, não devemos ser os bons alunos da Europa nesta matéria?
Não vou comentar o caso da PT e da ‘golden share', porque há demasiados comentadores a falar e quem deve falar são os accionistas e o Estado...
Estamos a falar da situação da EDP, cujos direitos especiais, aliás, estão a ser analisados por Bruxelas.
Compete-me gerir a empresa e não dar orientações ao meu accionista... aliás, eu não dou orientações ao meu accionista, dou apenas ideias. Quem dá orientações são os accionistas, são eles que mandam na companhia. O futuro vai passar pelo fim dos direitos especiais e pela igualdade entre accionistas, isso é, para mim, claro, mas é preciso ver qual a velocidade desse caminho e quem o faz.
Se o Tribunal Europeu vier a considerar que os direitos especiais do Estado na EDP são ilegais, a empresa fica vulnerável a uma OPA?
Se isso suceder, todos os accionistas podem votar com a totalidade da participação que têm, mas hoje qualquer empresa, se quiser, pode fazer isso, porque o capital disponível em bolsa (free float) é de cerca de 50% ou até mais e se um accionista do núcleo duro vender, o capital disponível já superaria os 50%. As companhias são mais vulneráveis quando não são diferenciadoras na sua actividade e na sua estratégia. Mas a EDP é. O que queremos é que os accionistas não queiram sair e temos de evitar situações, a esse nível, equívocas. As parcerias têm de ser coerentes e, sobretudo, é importante que as decisões de hoje não criem problemas a prazo.
Parece estar a falar da Galp...
Não, não. Estou apenas a dizer que é preciso criar opções e evitar equívocos.
Foi confrontado com um equívoco quando chegou à EDP, por força da participação da Iberdrola.
Quando cheguei, disse que não poderíamos privilegiar um accionista e foi possível criar uma relação de normalidade com a Iberdrola. Tal como foi normal, depois, a redução da sua participação.
Mas a presença do Estado no capital é importante ou não?
A capacidade da economia portuguesa depende muito das grandes empresas e da sua capacidade de internacionalização. Os mercados como o brasileiro ou o africano são fundamentais e essenciais para a criação de riqueza, também em Portugal. Eu sou reconhecidamente liberal e a favor da concorrência, mas já afirmei que participação do Estado na EDP era importante, o que mereceu alguns comentários de amigos, também liberais... Em Portugal, ser liberal tem uma conotação negativa, infelizmente, porque em Portugal temos a mania de que a igualdade de oportunidades é no ponto de chegada, quando deveríamos, todos, defender a igualdade de oportunidades no ponto de partida. A igualdade está no sítio errado...
É importante ou não?
A presença do Estado na EDP é importante... vou dar um exemplo: se o Estado não tivesse na EDP, a empresa teria sido alvo de uma OPA, no passado e não hoje, porque agora não há OPA. Seria uma subsidiária de uma empresa estrangeira, não teria a presença na área da energia renovável eólica, e provavelmente não teria investido, como está a investir, no sector hídrico. A importância que a EDP deu à área hídrica e que a transformou no maior projecto europeu não teria sido possível sem o Estado e não existiria.
O Estado poderia ter mantido a maioria do capital...
Acho que não. Portugal foi uma economia que se descapitalizou, com poucos grupos económicos e ausência de massa crítica e com uma incapacidade para formar núcleos duros accionistas fortes como em outros países.
A EDP precisa de reforçar o núcleo duro accionista?
Gostaria, primeiro, de dizer que essa matéria compete sobretudo a António de Almeida e ao conselho geral e de supervisão. Devo dizer, de qualquer forma, que tem sido feito um trabalho muito importante. Fomos inovadores, também, na parceira com a Sonantrach para acesso a uma fonte de energia - o gás - e acabou por entrar no nosso capital e no nosso conselho geral. Depois, fomos inovadores quando um investidor de Abudhabi, ..., entrou no nosso capital e tem hoje mais de 4% da companhia. Entretanto, entrou o grupo Espírito Santo e o grupo Mello reforçou a sua posição.
Hoje, a EDP tem um núcleo duro de accionistas?
Eu vejo a dureza do núcleo duro pela sua capacidade em apoiar e suportar uma estratégia de crescimento da companhia. E é isso que sucede hoje, eu sinto que o núcleo está duro.
O uso da ‘golden share' na PT prejudicou a imagem do País?
À partida, os mercados não gostam dessas intervenções, mas o impacto dessa decisão nas conversas que os investidores internacionais têm connosco é nulo, não é uma questão. No top das questões que são levantadas num ‘road-show', surgem a política fiscal, a consolidação das contas públicas, o crescimento económico, as decisões de política tarifária em Portugal e no mundo. O uso da ‘golden share' terá, com certeza, impacto na própria PT.
" É URGENTE REPENSAR AS FUNÇÕES DO ESTADO"
Foi ministro das Obras Públicas do Governo de Santana Lopes e defendeu o fim das Scut. Tem a mesma posição?
Sobretudo hoje, no quadro da crise que vivemos, essa minha opinião só sai reforçada. Os portugueses têm de ter a noção de que as coisa são pagas pelo contribuinte ou pelo consumidor. Um deles tem de pagar. Éurgente repensar as funções do Estado. O Estado deve concentrar-se nas funções de redistribuição de rendimentos e de justiça social e, obviamente, de soberania. O que sucede é que o Estado, muitas vezes, subsidiamos sistemas e não pessoas, o que leva a ajudar quem não precisa e a deixar de apoiar quem mais precisa. Porque perdemos recursos e margem de manobra.
Outra vez a questão das oportunidades?
Na passagem breve pelo Governo e, depois, na elaboração do programa do PSD, no qual tive o prazer de participar, discutimos muito a questão da liberdade de escolha, por um lado, e a criação oportunidades. Seja nas estradas, nas escolas ou no acesso à saúde, o importante é criar igualdades de oportunidades à partida. Para quê? Para promover a mobilidade social e a justiça social.
Com uma revisão das funções do Estado?
Com uma diminuição da carga fiscal, com a transferência de muitas funções que estão hoje a ser pagas pelo contribuinte para o consumidor, para que os indivíduos mais frágeis o mais expostos sejam verdadeiramente ajudados e apoiados com fundos. É ridículo pensar que a transferência de riqueza entre individuos pode ser feita através da ausência de portagens. Vou contar uma história: uma vez, quando era ministro, fui ao Algarve e diziam-me que haveria menos turismo por causa de portagens na Via do Infante... mas alguém deixa de fazer férias no algarve por causa das portagens!? É simplesmente ridículo. Claro que, quando há ausência de alternativas e em períodos de transicção...
Deve haver isenções?
... Agora, acho que não deve haver diferenças entre regiões, todos devem ser tratados por igual e com transparência. Mas eu também sou defensor da fixação de taxas de acesso às cidades. É preciso promover os transportes públicos e a sua mobilidade dentro das cidades. Aliás, hoje, a fiscalidade está baseada em impostos sobre o trabalho, sobre a poupança e sobre os lucros. Ora, eu quero mais trabalho, mais poupança e mais lucros e estou a tributar isso, quando deveria estar a desviar parte dessa carga fiscal para os recursos que não são replicáveis e sobre os quais há um conflito de utilização entre o senhor A e o senhor B. No espectro radioeléctrico, no acesso às cidades, na água. Quando eu não estou a pôr portagens e a pôr o contribuinte a pagar, estou a ter um custo de oportunidade, uma coisa que não se discute em Portugal. Se o Estado não tivesse o custo das Scut, poderia estar a fazer outra coisa, eventualmente dar acesso à Saúde e à Educação aos que não têm condições e recursos É a defesa do status quo.
Fonte Económico - PT - 25/07/10