Durban - Apesar da distância do Brasil, do isolamento da concentração da Seleção na África do Sul e do foco na disputa da Copa do Mundo, Dunga não foi indiferente à tragédia causada pelas chuvas no estado. As cenas de destruição em várias cidades pernambucanas, e também alagoanas, chegaram ao conhecimento dos atletas, que têm consciência que uma boa apresentação da Seleção ainda é capaz de proporcionar minutos de alento a essa população, como mostrou o Diario no último domingo.
"Fica a nossa solidariedade ao povo de Pernambuco e Alagoas. Até conversamos sobre isso na concentração. Temos um carinho todo especial por Recife.
Sempre que a Seleção não andava muito bem das pernas jogávamos lá e recebiamos aquele calor, aquela demonstração de amor pela Seleção. Estamos torcendo e rezando para que as coisas melhorem", afirmou o comandante, lembrando da recepção em 2009, antes, durante e depois da partida que a Canarinha venceu o Paraguai por 2 x 1, em 10 de junho, no Arruda, pelasEliminatórias do Mundial.
Ontem, durante a entrevista coletiva organizada pela Fifa, Carlos Caetano Bledorn Verri esteve manso. No último contato com a imprensa antes do jogo desta sexta, contra Portugal, Dunga respondeu às perguntas em tom baixo.
Calmo, sereno e tranquilo, parecia anestesiado. Evitou provocações à imprensa, pediu desculpas à torcida não ao jornalista Alex Escobar pelos palavrões dirigidos publicamente ao profissional na entrevista após a vitória por 3 x 1 sobre a Costa do Marfim, e levantou bandeira branca. Pediu trégua.
"Vou falar uma única vez sobre esse assunto. Quero pedir desculpas ao torcedor brasileiro pela indevida forma como eu me comportei. Porque o torcedor que sempre tem me apoiado na Seleção Brasileira não tem nada a ver com os meus problemas pessoais. Ou com uma ou outra situação. E eu, como brasileiro, como todo torcedor, só quero trabalhar. Só quero que me deixem trabalhar. Então, eu peço desculpas ao torcedor brasileiro que não tem que saber de algumas coisas ou ouvir algum desabafo meu. Só tem que torcer pela Seleção Brasileira, ser feliz com o que a Seleção Brasileira faz. Só quero fazer o meu trabalho", desabafou.
Emocionado e com a voz embargada, Dunga quase foi às lágrimas ao comentar como tem acompanhado, de longe, o problema de saúde do pai, Edelceu, vítima do Mal de Alzheimer.
"Não é a primeira vez que ele está nesta situação desde que assumi a Seleção Brasileira.
Para mim, é só mais uma oportunidade de poder mostrar para o meu pai tudo o que ele me ensinou. Homem para ser homem tem que ter coerência, tem que ter dignidade, tem que ter transparência.
E saber pedir desculpas quando erra", completou o capitão do tetra.
Antes de deixar o auditório, Dunga citou a mãe, dona Maria, e pediu à torcida para que não lhe deixe só. "Mais do que sofrer ao lado do meu pai, ela me deu o maior exemplo de que o que estão fazendo com o filho dela não se faz com ser humano nenhum. Ela me ensinou a não largar nunca nada, levar até o final. Fizeram chacota de mim quando falei que elaé professora de história, e a história já demonstrou que temos que ter amor ao país. E temos que ser patriotas. Por mais que não gostemos, temos que ser patriotas", discursou.
O desabafo do técnico ocorreu cinco dias depois de um surto durante a coletiva da partida contra a Costa do Marfim. Dunga falava ao microfone quando interrompeu as declarações para discutir com o jornalista Alex Escobar, da TV Globo, que conversava ao celular. Transtornado, Dunga imaginou que o profissional estivesse falando dele. Falou palavrões no auditório do Estádio Soccer City e viu um contra-ataque da emissora no programa Fantástico, condenando a atitude inapropriada para o cargo.
Trabalho - Dunga pediu que o deixem trabalhar, e terá muito trabalho contra Portugal. O adversário de hoje não é mais o mesmo de 19 de novembro de 2008, humilhado por 6 x 2 pela Seleção Brasileira, na reinauguração do Estádio Bezerrão, no Gama. Orgulhosa de ter a melhor defesa do mundo, formada por Julio Cesar, Maicon, Lúcio, Juan e Michel Bastos, a esquadra canarinha verá, hoje, uma inversão de papéis.
Portugal é quem tem a defesa mais forte.
Das 32 seleções que começaram a Copa, é quem menos sofreu gol nos últimos dez jogos apenas um, do camaronês Webo, em um amistoso.
Na Copa do Mundo, os lusitanos são os únicos que ainda não foram vazados.
Fonte: Super Esportes - 25/06/10