Por Fernando Peixeiro
Um candeeiro feito de três AK-47 ilumina uma sala do Conselho Cristão de Moçambique, na capital Maputo, mostrando que as metralhadoras podem ter outra utilidade, além de matar.
Se soubesse, Mikhail Kalashnikov, criador destes armamentos, ficaria satisfeito.
Em Moçambique, depois da guerra civil, milhares de armas, incluindo as famosas AK-47, foram aproveitadas para fazer objetos de arte e de uso comum, um projeto do Conselho Cristão que ainda se mantém.
A ideia surgiu na província de Nampula, pela boca de uma mulher, quando a guerra ainda não tinha acabado, e reuniu até hoje cerca de 800 mil artefatos de guerra.
"Quando vimos que os políticos que estavam em guerra, a Renamo e o Governo, começaram a falar chegamos à conclusão de que a paz estava a caminho e iniciamos um programa chamado PPP, Preparação do Povo para a Paz", contou à Agência Lusa o bispo da Igreja Anglicana de Moçambique, D. Dinis Sengulane.
A guerra civil durou de 1977 a 1992 e no ano seguinte começou o programa de recolhimento de armas e durante um seminário do PPP uma mulher disse: "Armas. Ambos os lados fizeram uma distribuição muito generosa de armas.
Essas armas estão aí e certamente vão ser grande ameaça para a paz".D. Dinis explicou que nessa mesma noite concebeu um plano, dividido por quatro fases: receber a arma, inutilizá-la, entregar em troca um instrumento de produção (uma charrua, uma bicicleta ou uma máquina de costura) e usar o metal da arma para fazer enxadas.
"Só que a nossa indústria não tem capacidade para derreter o metal de que a arma é feita, por isso falamos com os artistas.
E dissemos: vocês que têm sido tão bons em glorificar a guerra, é só ver os monumentos que temos, os heróis, vamos lá glorificar a paz, fazer alguma coisa que não inspire violência nem guerra".
Segundo Sengulane, os artistas "ficaram encantados". Pegaram nas armas e "foram fazendo mesas, candeeiros, pessoas a dançar, cruzes, cadeiras, até uma árvore".
A árvore, chamada Árvore da Vida, com ramos, ninhos e animais, é um monumento de quase cinco toneladas feito só de armas que está exposto no Museu Britânico, na galeria da África, em Londres, e que já ganhou prêmios.
Símbolos
O próprio D. Dinis usa ao peito uma cruz feita de culatras de pistola.
Já no Instituto Cultural Francês há um helicóptero feito de metralhadoras, além de cadeiras e outros objetos no Conselho Cristão de Moçambique, onde está sendo terminada uma pomba gigante, que será colocada na Assembleia da República.
Todos os objetos são produzidos a partir de restos de armas, trocadas nos últimos tempos também por material de construção ou outros objetos.
Tudo, menos dinheiro.Nicolau Luís, assistente do projeto Transformação de Armas em Enxadas, diz que o objetivo é diminuir o circuito das armas ilegais e garante que ainda hoje, 17 anos depois da guerra, a oferta de armas é maior do que a capacidade para as absorver.
Apesar de inutilizadas, em cada objeto vê-se, e é essa a intenção, que "um instrumento de morte foi transformado em mensagem de paz".D. Dinis queria que fosse assim no mundo.
E pede mesmo à indústria de armamento que use a sua imensa criatividade para melhorar a qualidade de vida das pessoas e não "num instrumento para matar vidas humanas".
Talvez Mikhail Kalashnikov, o homem que hoje completa 90 anos de idade e que um dia disse que gostaria de ter inventado um aparador de relva, pense o mesmo.
E gostaria de saber que em Moçambique, um país que tem na sua bandeira uma AK-47 (Avtomat Kalashnikova 1947), as armas também podem transformar-se em arte.
Fonte: da Agência Lusa-Maputo- 10/11/09
Um candeeiro feito de três AK-47 ilumina uma sala do Conselho Cristão de Moçambique, na capital Maputo, mostrando que as metralhadoras podem ter outra utilidade, além de matar.
Se soubesse, Mikhail Kalashnikov, criador destes armamentos, ficaria satisfeito.
Em Moçambique, depois da guerra civil, milhares de armas, incluindo as famosas AK-47, foram aproveitadas para fazer objetos de arte e de uso comum, um projeto do Conselho Cristão que ainda se mantém.
A ideia surgiu na província de Nampula, pela boca de uma mulher, quando a guerra ainda não tinha acabado, e reuniu até hoje cerca de 800 mil artefatos de guerra.
"Quando vimos que os políticos que estavam em guerra, a Renamo e o Governo, começaram a falar chegamos à conclusão de que a paz estava a caminho e iniciamos um programa chamado PPP, Preparação do Povo para a Paz", contou à Agência Lusa o bispo da Igreja Anglicana de Moçambique, D. Dinis Sengulane.
A guerra civil durou de 1977 a 1992 e no ano seguinte começou o programa de recolhimento de armas e durante um seminário do PPP uma mulher disse: "Armas. Ambos os lados fizeram uma distribuição muito generosa de armas.
Essas armas estão aí e certamente vão ser grande ameaça para a paz".D. Dinis explicou que nessa mesma noite concebeu um plano, dividido por quatro fases: receber a arma, inutilizá-la, entregar em troca um instrumento de produção (uma charrua, uma bicicleta ou uma máquina de costura) e usar o metal da arma para fazer enxadas.
"Só que a nossa indústria não tem capacidade para derreter o metal de que a arma é feita, por isso falamos com os artistas.
E dissemos: vocês que têm sido tão bons em glorificar a guerra, é só ver os monumentos que temos, os heróis, vamos lá glorificar a paz, fazer alguma coisa que não inspire violência nem guerra".
Segundo Sengulane, os artistas "ficaram encantados". Pegaram nas armas e "foram fazendo mesas, candeeiros, pessoas a dançar, cruzes, cadeiras, até uma árvore".
A árvore, chamada Árvore da Vida, com ramos, ninhos e animais, é um monumento de quase cinco toneladas feito só de armas que está exposto no Museu Britânico, na galeria da África, em Londres, e que já ganhou prêmios.
Símbolos
O próprio D. Dinis usa ao peito uma cruz feita de culatras de pistola.
Já no Instituto Cultural Francês há um helicóptero feito de metralhadoras, além de cadeiras e outros objetos no Conselho Cristão de Moçambique, onde está sendo terminada uma pomba gigante, que será colocada na Assembleia da República.
Todos os objetos são produzidos a partir de restos de armas, trocadas nos últimos tempos também por material de construção ou outros objetos.
Tudo, menos dinheiro.Nicolau Luís, assistente do projeto Transformação de Armas em Enxadas, diz que o objetivo é diminuir o circuito das armas ilegais e garante que ainda hoje, 17 anos depois da guerra, a oferta de armas é maior do que a capacidade para as absorver.
Apesar de inutilizadas, em cada objeto vê-se, e é essa a intenção, que "um instrumento de morte foi transformado em mensagem de paz".D. Dinis queria que fosse assim no mundo.
E pede mesmo à indústria de armamento que use a sua imensa criatividade para melhorar a qualidade de vida das pessoas e não "num instrumento para matar vidas humanas".
Talvez Mikhail Kalashnikov, o homem que hoje completa 90 anos de idade e que um dia disse que gostaria de ter inventado um aparador de relva, pense o mesmo.
E gostaria de saber que em Moçambique, um país que tem na sua bandeira uma AK-47 (Avtomat Kalashnikova 1947), as armas também podem transformar-se em arte.
Fonte: da Agência Lusa-Maputo- 10/11/09








