Álvaro Cotta, especialista em marketing esportivo dá dicas para o planejamento de 2014
Diretor da Costa & Cotta Marketing Esportivo, ex-diretor de marketing de várias agremiações esportivas, o mineiro Álvaro Cotta vê a Copa de 2014 como uma oportunidade para o país fazer uma verdadeira revolução no mundo do esporte.
Presente ao 2º Fórum do Time de Arquitetos da Copa, em Salvador, Cotta sensibilizou sua platéia com dados concretos sobre a renda de estádios, negócios gerados e comparações com o "business esportivo" em outros países.
Nesta entrevista, Álvaro revela um pouco de sua experiência
É possível fazer uma comparação do business esportivo no Brasil com os EUA e a Europa?
O mercado de negócios esportivos do EUA e Europa são amadurecidos e atingiram números expressivos quando comparados com a realidade brasileira.
Apesar de o Brasil avançar rapidamente, sempre haverá uma diferença econômica devido ao mercado consumidor desses mercados e o brasileiro.
Entretanto, as oportunidades no país são enormes no futebol e nos esportes olímpicos.
Muitos eventos são criados anualmente para atender interesses dos grupos de mídia ou amantes das modalidades.
Um dos pontos fundamentais para a entrada de novas empresas no marketing esportivo é a contínua formação de novos profissionais qualificados na gestão dos esportes.
Também não podemos esquecer do aprendizado do mercado publicitário sobre as ferramentas do marketing esportivo como "alavancagem" dos negócios corporativos.
A Copa de 2014 pode trazer melhorias na rentabilidade dos clubes e arenas esportivas do Brasil?Essa é uma expectativa iminente dos dirigentes dos clubes de futebol no Brasil.
Principalmente dos usuários das novas arenas e novos estádios.
Acredito que haverá um grande potencial de crescimento e exploração das receitas provenientes dos match days.
Porém há escassez de empresas e profissionais no mercado do futebol capazes de desenvolver estratégias e pacotes comerciais visando esse novo negócio no país.
A demanda de empresas interessadas na concessão de alimentação, estacionamento, merchandising, mídia digital, ações promocionais, camarotes e área vip será melhor aproveitada pelos clubes preparados para esse cenário.
Os projetos dos novos estádios precisam atender tanto as exigências da Fifa para a Copa do Mundo quanto a realidade dos clubes brasileiros para os próximos 30 anos.
Mas será possível usar os novos estádios para shows e outros espetáculos, eventos religiosos, comércio e serviços.
Qual seria a rentabilidade dessas atividades?
A rentabilidade dos novos estádios será diretamente proporcional ao potencial do mercado local. Estádios com maior utilização para dias de futebol reduzirão a ociosidade, o que resultará em maior potencial de negócios.
Por exemplo, o Mineirão atenderá Atlético e Cruzeiro.
Em média, cada clube fazem 32 jogos por ano em casa.
No total, considerando que cada jogo demanda dois dias de preparação, serão 128 dias de futebol. Por outro lado, a Fonte Nova receberá previamente somente os jogos do Bahia.
Isso aumentará significativamente a ociosidade do estádio.
Quanto aos shows e eventos, mercados com maior demanda para esses serviços podem conseguir lucratividade anual com os estádios.
Todavia, a maioria dos clubes não está atenta à manutenção dessas estruturas.
Cidades como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Salvador, Manaus e Natal, cujos estádios são públicos, sempre tiveram os custos de manutenção assumidos pelos órgãos públicos. Após a Copa, uma nova realidade exigirá que os clubes preocupem com a gestão dos estádios e não somente com as receitas.
Vários estádios brasileiros podem mesmo tornar-se "elefantes brancos"..?
Esse é um ponto crítico dos investimentos para os estádios da Copa.
As cidades sedes foram definidas e a participação dessas cidades na Copa é importante para o país.
O potencial turístico e o desenvolvimento econômico dessas regiões serão potencializados.
Por isso, não podemos analisar isoladamente os recursos aplicados nas contruções dos estádios.
O desafio dos governos, dos arquitetos, das construtoras e dos clubes será elaborar um projeto no qual atenda as necessidades dos jogos para a Copa e a realidade brasileira para os próximos 30 anos.
Alguns estádios podem gerar prejuízos operacionais a partir de 2015.
Essa perda tem que ser dimensionada.
Recife e Salvador têm um grande potencial financeiro, porém o governo e os clubes precisam trabalhar juntos nos projetos.
Não podemos deixar que os fatores políticos e culturais (rivalidades) do futebol nessas cidades coloquem em risco a viabilidade econômica do projeto.
Não há razão para Recife e Salvador construir arenas modernas para uso de um clube somente. Considerando as características do torcedor brasileiro e do produto futebol, os investimentos nos estádios não se justificam para atender apenas uma torcida.
O futebol transformou-se em um grande negócio no mundo.
No Brasil não pode ser diferente.
Como poderia ser equacionado o projeto comercial para as novas arenas?
Soluções como "naming rights", publicidade, fidelização de público e turismo em estádios podem ser fontes de recursos para os clubes do Brasil?
Antes do planejamento comercial e identificação das propriedades que os novos estádios oferecerão para os clube, os dirigentes precisam encontrar modelos econômicos de rentabilidade futura para essas arenas após a Copa.
Muitos clubes e dirigentes estão anciosos para receberem as novas receitas e investir os recursos nas contratações de atletas.
Entretanto, quem vai pagar a manutenção desses estádios.
Os governos estão sustentando o futebol brasileiro a muitos anos.
Alguns clubes mais, outros menos. Agora chegou o momento dessa ruptura.
O recurso público nos novos estádios é necessário.
Pode até ser compreensível dentro de um programa de desenvolvimento do país e do futebol a partir da Copa do Mundo.
Mas o governo não pode continuar pagando os custos operacionais dos estádios.
Então, os clubes precisarão de profissionais na gestão dos estádios para que esse patrimônio seja valorizado.
O que deve mudar para que o Brasil potencialize o marketing do futebol?
O potencial mercadológico do esporte (futebol e especializado) é incalculável.
E precisa ser mais debatido e estudado.
O Brasil já entendeu que é preciso melhorar a gestão do esporte nacional.
O esporte é um produto, um negócio, um entretenimento.
O dilema está na busca das soluções.
Esse processo de mudança terá erros e acertos.
Filosofias e conceitos divergentes fortalecerão o debate.
Mas um ponto fundamental para encontrar soluções com menores riscos está em um planejamento de médio e longo prazo.
Para isso, é preciso informação.
E o Brasil tem pouca informação sobre a atividade esportiva.
Acredito que as grandes empresas estatais contribuiriam muito para o esporte nacional se decidisse investir em um grande estudo nacional do esporte, futebol e especializado.
Através desse estudo, que precisa ser atualizado anualmente, os dirigentes das entidades esportivas e a população encontrariam caminhos para a definição de um modelo aprimorado para a gestão do esporte nacional.
Como os clubes e governantes poderiam fomentar a indústria cultural vinculada ao futebol e à Copa?
Futebol é cultura. Faz parte da cultura brasileira durante 365 dias do ano.
Em média, 86% da população brasileira torce para um time de futebol.
Futebol é paixão. E paixão traz emoção.
Há uma grande sinergia entre o futebol e a cultura.
Infelizmente, o futebol não está preparado para explorar essa sinergia.
A gestão da maioria dos clubes está focada dentro das quatro linhas.
Para mim, isso é um erro. Pois somente um clube será campeão.
E somente cinco chegam à Libertadores todo ano.
Se continuarmos alimentando que o único objetivo dos grandes clubes é o título, fortaleceremos um comportamento de pensamento no curto prazo.
Hoje, um clube para ser campeão brasileiro precisa planejar e se preparar, dentro e fora de campo.
Pode levar três, quatro ou cinco anos.
A nova realidade do futebol não permite que todos os clubes disputem títulos.
E isso ainda não foi compreendido pelos dirigentes e pelos torcedores.
Anos atrás, as chances eram mais abrangentes.
A profissionalização aumentou a diferença entre os clubes.
A cultura pode contribuir com a valorização da marca do clube gerando novos negócios e receitas que reforçam o orçamento financeiro.
Fonte: Portal da Copa 2014 - 26/09/09
Diretor da Costa & Cotta Marketing Esportivo, ex-diretor de marketing de várias agremiações esportivas, o mineiro Álvaro Cotta vê a Copa de 2014 como uma oportunidade para o país fazer uma verdadeira revolução no mundo do esporte.
Presente ao 2º Fórum do Time de Arquitetos da Copa, em Salvador, Cotta sensibilizou sua platéia com dados concretos sobre a renda de estádios, negócios gerados e comparações com o "business esportivo" em outros países.
Nesta entrevista, Álvaro revela um pouco de sua experiência
É possível fazer uma comparação do business esportivo no Brasil com os EUA e a Europa?
O mercado de negócios esportivos do EUA e Europa são amadurecidos e atingiram números expressivos quando comparados com a realidade brasileira.
Apesar de o Brasil avançar rapidamente, sempre haverá uma diferença econômica devido ao mercado consumidor desses mercados e o brasileiro.
Entretanto, as oportunidades no país são enormes no futebol e nos esportes olímpicos.
Muitos eventos são criados anualmente para atender interesses dos grupos de mídia ou amantes das modalidades.
Um dos pontos fundamentais para a entrada de novas empresas no marketing esportivo é a contínua formação de novos profissionais qualificados na gestão dos esportes.
Também não podemos esquecer do aprendizado do mercado publicitário sobre as ferramentas do marketing esportivo como "alavancagem" dos negócios corporativos.
A Copa de 2014 pode trazer melhorias na rentabilidade dos clubes e arenas esportivas do Brasil?Essa é uma expectativa iminente dos dirigentes dos clubes de futebol no Brasil.
Principalmente dos usuários das novas arenas e novos estádios.
Acredito que haverá um grande potencial de crescimento e exploração das receitas provenientes dos match days.
Porém há escassez de empresas e profissionais no mercado do futebol capazes de desenvolver estratégias e pacotes comerciais visando esse novo negócio no país.
A demanda de empresas interessadas na concessão de alimentação, estacionamento, merchandising, mídia digital, ações promocionais, camarotes e área vip será melhor aproveitada pelos clubes preparados para esse cenário.
Os projetos dos novos estádios precisam atender tanto as exigências da Fifa para a Copa do Mundo quanto a realidade dos clubes brasileiros para os próximos 30 anos.
Mas será possível usar os novos estádios para shows e outros espetáculos, eventos religiosos, comércio e serviços.
Qual seria a rentabilidade dessas atividades?
A rentabilidade dos novos estádios será diretamente proporcional ao potencial do mercado local. Estádios com maior utilização para dias de futebol reduzirão a ociosidade, o que resultará em maior potencial de negócios.
Por exemplo, o Mineirão atenderá Atlético e Cruzeiro.
Em média, cada clube fazem 32 jogos por ano em casa.
No total, considerando que cada jogo demanda dois dias de preparação, serão 128 dias de futebol. Por outro lado, a Fonte Nova receberá previamente somente os jogos do Bahia.
Isso aumentará significativamente a ociosidade do estádio.
Quanto aos shows e eventos, mercados com maior demanda para esses serviços podem conseguir lucratividade anual com os estádios.
Todavia, a maioria dos clubes não está atenta à manutenção dessas estruturas.
Cidades como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Salvador, Manaus e Natal, cujos estádios são públicos, sempre tiveram os custos de manutenção assumidos pelos órgãos públicos. Após a Copa, uma nova realidade exigirá que os clubes preocupem com a gestão dos estádios e não somente com as receitas.
Vários estádios brasileiros podem mesmo tornar-se "elefantes brancos"..?
Esse é um ponto crítico dos investimentos para os estádios da Copa.
As cidades sedes foram definidas e a participação dessas cidades na Copa é importante para o país.
O potencial turístico e o desenvolvimento econômico dessas regiões serão potencializados.
Por isso, não podemos analisar isoladamente os recursos aplicados nas contruções dos estádios.
O desafio dos governos, dos arquitetos, das construtoras e dos clubes será elaborar um projeto no qual atenda as necessidades dos jogos para a Copa e a realidade brasileira para os próximos 30 anos.
Alguns estádios podem gerar prejuízos operacionais a partir de 2015.
Essa perda tem que ser dimensionada.
Recife e Salvador têm um grande potencial financeiro, porém o governo e os clubes precisam trabalhar juntos nos projetos.
Não podemos deixar que os fatores políticos e culturais (rivalidades) do futebol nessas cidades coloquem em risco a viabilidade econômica do projeto.
Não há razão para Recife e Salvador construir arenas modernas para uso de um clube somente. Considerando as características do torcedor brasileiro e do produto futebol, os investimentos nos estádios não se justificam para atender apenas uma torcida.
O futebol transformou-se em um grande negócio no mundo.
No Brasil não pode ser diferente.
Como poderia ser equacionado o projeto comercial para as novas arenas?
Soluções como "naming rights", publicidade, fidelização de público e turismo em estádios podem ser fontes de recursos para os clubes do Brasil?
Antes do planejamento comercial e identificação das propriedades que os novos estádios oferecerão para os clube, os dirigentes precisam encontrar modelos econômicos de rentabilidade futura para essas arenas após a Copa.
Muitos clubes e dirigentes estão anciosos para receberem as novas receitas e investir os recursos nas contratações de atletas.
Entretanto, quem vai pagar a manutenção desses estádios.
Os governos estão sustentando o futebol brasileiro a muitos anos.
Alguns clubes mais, outros menos. Agora chegou o momento dessa ruptura.
O recurso público nos novos estádios é necessário.
Pode até ser compreensível dentro de um programa de desenvolvimento do país e do futebol a partir da Copa do Mundo.
Mas o governo não pode continuar pagando os custos operacionais dos estádios.
Então, os clubes precisarão de profissionais na gestão dos estádios para que esse patrimônio seja valorizado.
O que deve mudar para que o Brasil potencialize o marketing do futebol?
O potencial mercadológico do esporte (futebol e especializado) é incalculável.
E precisa ser mais debatido e estudado.
O Brasil já entendeu que é preciso melhorar a gestão do esporte nacional.
O esporte é um produto, um negócio, um entretenimento.
O dilema está na busca das soluções.
Esse processo de mudança terá erros e acertos.
Filosofias e conceitos divergentes fortalecerão o debate.
Mas um ponto fundamental para encontrar soluções com menores riscos está em um planejamento de médio e longo prazo.
Para isso, é preciso informação.
E o Brasil tem pouca informação sobre a atividade esportiva.
Acredito que as grandes empresas estatais contribuiriam muito para o esporte nacional se decidisse investir em um grande estudo nacional do esporte, futebol e especializado.
Através desse estudo, que precisa ser atualizado anualmente, os dirigentes das entidades esportivas e a população encontrariam caminhos para a definição de um modelo aprimorado para a gestão do esporte nacional.
Como os clubes e governantes poderiam fomentar a indústria cultural vinculada ao futebol e à Copa?
Futebol é cultura. Faz parte da cultura brasileira durante 365 dias do ano.
Em média, 86% da população brasileira torce para um time de futebol.
Futebol é paixão. E paixão traz emoção.
Há uma grande sinergia entre o futebol e a cultura.
Infelizmente, o futebol não está preparado para explorar essa sinergia.
A gestão da maioria dos clubes está focada dentro das quatro linhas.
Para mim, isso é um erro. Pois somente um clube será campeão.
E somente cinco chegam à Libertadores todo ano.
Se continuarmos alimentando que o único objetivo dos grandes clubes é o título, fortaleceremos um comportamento de pensamento no curto prazo.
Hoje, um clube para ser campeão brasileiro precisa planejar e se preparar, dentro e fora de campo.
Pode levar três, quatro ou cinco anos.
A nova realidade do futebol não permite que todos os clubes disputem títulos.
E isso ainda não foi compreendido pelos dirigentes e pelos torcedores.
Anos atrás, as chances eram mais abrangentes.
A profissionalização aumentou a diferença entre os clubes.
A cultura pode contribuir com a valorização da marca do clube gerando novos negócios e receitas que reforçam o orçamento financeiro.
Fonte: Portal da Copa 2014 - 26/09/09








